A destruição extraterrestre de Veneza

É em um de seus maiores romances científicos, intitulado “Encontros com Rama” (Rendezvous with Rama – 1972), que Arthur Clarke resolve chutar o pau da barraca, destruindo Veneza sem a menor cerimônia. Justo Veneza, uma das mais belas cidades da Terra! E não é de levinho que Clarke o faz: um bólido extraterreste desaba em cheio sobre a cidade italiana, arrasando com tudo instantaneamente. Em decorrência da catástrofe, os governos da Terra se unem em prol do desenvolvimento de um super-programa de monitoramento extraterrestre. Entretanto, ao invés de procurar por E.T.s amigos, o tal super-programa do romance de Clarke tinha por objetivo identificar todos os asteróides passíveis de causar risco para nossa civilização. Desde os imensos até os mais pequeninos.

Notem que não é à toa que Clarke escolhe Veneza. Digamos que o meteoro que explodiu hoje [15/02/2013], ferindo mais de mil pessoas, tivesse efetivamente caído sobre Tchelyabinsk. Sim, Tchelyabinsk, esta cidade russa sobre a qual você provavelmente nunca ouviu falar e talvez jamais viesse a saber da existência. Aposto até que você nem sabia o nome dela até ler aqui. Confessa que você comentava assim: “aquela cidade russa onde o meteoro caiu”. Não te culpo, nem eu conhecia este lugar. Mas o que aconteceria? Um milhão de pessoas morreriam. Muito, muito mais do que Veneza, cuja população local se resume a algo em torno de 270 mil habitantes [sem contarmos os turistas sempre presentes, capazes de aumentar um pouco esta taxa]. A despeito da desigualdade populacional que torna Tchelyabinsk mais significativa do que Veneza em termos de eventuais perdas humanas, tenho poucas dúvidas de que a catástrofe na cidade russa não desencadearia muito mais do que longos dias de lamentação… e só. Duvido que um duro golpe contra Veneza não comovesse muito mais o planeta, apesar de as eventuais perdas humanas serem muito inferiores. Não apenas comoveria, como seria a provável catapulta para investimentos coletivos mais dedicados em torno de um programa espacial similar ao defendido por Clarke em seu livro.

Não se trata, aqui, de uma opinião sustentada por um gosto pessoal, nem de achar que a desigualdade de reações seria certa ou errada. Golpear Tchelyabinsk, este lugar que não ocupa nossos imaginários, parece “doer menos” do que golpear Veneza, esta cidade para onde todo mundo já foi, mesmo sem ter ido, seja pela via da imaginação, seja pela via do cinema, da literatura. Se em Tchelyabinsk haveria mais mortes humanas, com o fim de Veneza haveria mais dor coletiva. Ok, admito que pode ter uma boa dose de envolvimento pessoal nisso, já que Veneza é uma das minhas cidades preferidas no mundo. Ainda assim, continuo a apostar numa desigualdade de reações, mas tanto faz – é muito improvável que uma desgraça do tipo venha a ocorrer.

Porra, Clarke!

O que temos atualmente em termos de programas de defesa contra a colisão de corpos extraterrestres? Quase nada. Somos capazes de identificar asteróides grandes e, ainda assim, nem sempre. Ninguém viu o meteoro chegando hoje na Rússia, a não ser quando ele já estava na iminência do impacto. Sobre o outro corpo que passa bem perto do planeta também hoje, o 2012 DA14, vale destacar duas coisas: 1. este asteróide não tem nada a ver com o meteoro que caiu na Rússia; parece bizarro, mas foi coincidência – um ia do norte para o sul, e o outro do sul para o norte; 2. o 2012 DA14 tem 45 metros de diâmetro. Se caísse na Terra, a probabilidade maior seria a de desabar no oceano. Se caísse numa cidade, a arrasaria, mas não seria – nem de longe – como o corpo que deu fim aos dinossauros.

Logo, quando falamos em probabilidades, o risco de um asteróide muito grande cair na Terra é pequeno. Ao cair, o risco de colidir contra um lugar habitado é menor ainda. Quanto menor o corpo, é probabilisticamente menor o risco. Mas ele existe. Não se trata, portanto, de pensar se isto acontecerá, porque vai acontecer. Só não sabemos quando. Infelizmente, a impressão que tenho é de que Clarke está certo: só iremos estabelecer como prioridade um programa de defesa contra corpos extraterrestres no dia em que alguma merda bem grande acontecer.

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