A internet é uma revolução?

Uma das cenas que mais me marcou quando entrei no curso de Astronomia foi quando o professor de Cálculo Diferencial perguntou aos alunos – meio que como um teste, me pareceu – exemplos do que eles consideravam uma “revolução científica”. Na hora saquei a pegadinha, mas não é justo eu me sentir melhor por isso. Eu já tinha uma graduação prévia em Filosofia, e sem ela talvez tivesse incorrido no mesmo equívoco que meus colegas.

Éramos mais de noventa alunos reunidos num grande auditório, e cada um deu o seu palpite de alguma grande revolução científica. A esmagadora maioria dos presentes respondeu “internet”. Só que a resposta está errada, e o erro deriva da confusão entre os termos “revolução” e “progresso”. Na ciência, “revolução” não é “progresso”. Embora o primeiro implique o segundo, o segundo não desencadeia necessariamente o primeiro.

O erro na resposta não espanta, considerando que a Filosofia foi limada do currículo escolar durante tanto tempo. E considero uma pena que Filosofia da Ciência seja uma matéria optativa no currículo dos cursos de ciência naturais. Um estudante de Física, Astronomia, Meteorologia, Oceanografia etc. deveria ter uma noção clara e precisa do que significa uma revolução científica. Não se trata de mero acréscimo cultural. O que está em jogo é o correto entendimento do que vem a ser aquilo que você estuda.

A internet é um progresso científico, um progresso tecnológico, mas não é uma revolução científica. Se está correto dizer que a internet causou uma revolução social, modificando a forma como as pessoas se relacionam, se comunicam e têm acesso ao conhecimento, não podemos dizer que ela causou uma revolução científica. Sim, eu sei, você adora a internet e vai chiar, depondo sobre o quanto ela mudou sua vida. Se você tem menos de 30 anos, acredite, nem sentiu tanto as mudanças, pois a internet já era uma realidade na sua adolescência – mesmo que com o nada saudoso chiado das conexões dial up, que o diabo as carregue. Você cresceu com a internet. Mas para quem tem mais de 40 anos, as modificações no que tange a relacionamentos e acesso ao conhecimento foram gritantes.

Acontece que o conceito de “revolução científica” representa uma notável mudança na estrutura da própria ciência. A internet não causou mudanças na estrutura da ciência. Ela resulta da aplicação de modelos científicos já vigentes. Ela, a internet, é o resultado de um substancial progresso técnico, mas progresso não é sinônimo de revolução. Revolução científica desencadeia progresso, é verdade, mas progresso não necessariamente desencadeia revoluções paradigmáticas. O fato de a internet ajudar a divulgar a ciência constitui apenas um avanço das comunicações.

Dito de outra maneira: tudo o que a internet oferece já havia no mundo. As pessoas se comunicavam a longas distâncias, recebiam informações de lugares longinquos etc. O que mudou foi a forma e a velocidade como essas coisas passaram a ser feitas. Ou seja: umprogresso tecnológico que desencadeou uma revolução relacional. Mas não uma revolução científica.

Revoluções científicas envolvem quebras de paradigmas, modificações radicais na forma de ver o mundo. A revolução copernicana é um exemplo de revolução científica: pensava-se que a Terra era o centro do Universo, e eis que de repente, não mais que de repente, fomos reduzidos a um mero mundo dentre tantos outros orbitando o verdadeiro centro do Sistema, uma estrela chamada “Sol”. O darwinismo é outra revolução científica, assim como a mecânica quântica (a verdadeira, não a pseudociência utilizada para envernizar propostas de terapias alternativas). Uma possível grande revolução científica se dará nos próximos vinte anos, quando talvez demonstraremos que existe vida bacteriológica em Titã, Europa ou Enceladus (satélites naturais de Saturno e Júpiter), mudando o paradigma vigente que diz que a vida é algo raríssimo. Astrobiólogos em geral apostam numa hipótese contrária: a atividade biológica é abundante no Universo. A vida inteligente, esta sim, é rara. Por enquanto é tudo aposta, evidentemente.

Por fim, devo lembrar que a única diferença substancial entre você ler o que eu escrevo neste blog e ter visto a propaganda dele no Facebook ou no Twitter é uma diferença de acessibilidade e de velocidade. Antes de 1997 você poderia ler o que eu escrevo, comprando uma revista, um jornal ou recebendo uma carta. Não há revolução científica contida em processos de “maior velocidade” ou “maior acessibilidade”. O que há, aqui, é um progresso referente a coisas que já existiam. Por mais mágico que possa parecer, por mais dinâmico e mais incrível que tudo isso se apresente, nada disso é uma “revolução científica”.

Mas é ótimo mesmo assim!

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