Usa isso pra voltar pra casa, vai parecer um vestido.

Imagine que você entra num carro para um passeio e o motorista acelera imediatamente, mantendo a velocidade de 120 km/h e, mesmo assim, você consegue ver os detalhes da paisagem ao seu redor. Sensação semelhante ocorre quando lemos “Sob a Redoma” (Under the Dome, 2009), de Stephen King. Ele começa num ritmo vertiginoso, enfia fundo o pé no acelerador e sustenta a história com grande habilidade, tornando este livro realmente difícil de deixar de lado.

Disseram-me que “Sob a Redoma” virou uma série de TV, e não me espanto com isso. Me espanta, isso sim, que tenham conseguido tornar a série ruim (segundo várias pessoas comentaram, pois não vi a série). O livro parece ter sido escrito intencionalmente com o objetivo de ser adaptado para a TV. Considerando as premissas, poderia bem ter sido um conto com um terço do tamanho mas, para justificar 954 páginas, King faz o que melhor sabe fazer: cria diversos pequenos dramas dentro da história maior.

A história principal é sobre um campo de força absolutamente impenetrável que se manifesta nos limites de uma cidade do Maine (óbvio que seria o Maine! Onde mais, em se tratando de um romance de King?). Ninguém consegue entrar nem sair da cidade. O que é este redoma, quem a fez, com qual objetivo e como destruí-la são os quatro elementos fundamentais deste universo.

Mas a redoma é também uma lente de aumento simbólica. Amplifica com todos os detalhes a vida banal dos habitantes da minúscula cidadezinha de Chester Mill. E é aí que se manifesta a maestria de King: torna fascinante o que seria, em qualquer instância, banal. Ainda que o “sobrenatural” no romance seja o campo de força misterioso, o verdadeiro terror é criado a partir das tramas relacionais humanas. O monstro de King em “Sob a Redoma” é um monstro banal, ordinário, cotidiano, cuja existência sem a lente de aumento da redoma talvez passasse despercebida. O monstro pode ser seu vizinho, seu médico, seu pastor. A redoma em si e o que a criou talvez seja o que menos assusta em todo o contexto. Terrível mesmo é a vizinhança…

Este é um romance rico em personagens secundários tão ou mais interessantes que os personagens principais. Se você conhece a obra de King, identificará a mesma fórmula de sucesso presente em outras histórias. Por exemplo: há um momento específico em que é inevitável lembrar da mais poderosa cena de “Carrie, a Estranha”. Ou mesmo reconhecer a semelhança entre os momentos protagonizados pelo trio Joe-Norrie-Benny e a camaradagem adolescente em busca de resolver mistérios, de “Conta Comigo”. Um dos vilões lembra demais o papai maluco de “O Iluminado”. Mas se King eventualmente se repete, jamais é entediante.

“Sob a Redoma” é principalmente uma obra política que sustenta uma tese: o problema mesmo não são as pessoas más, são as idiotas. Inevitável perceber que tudo o que acontece na trama só se torna possível porque a imbecilidade humana pode ser galopante. E é curioso como King cria personagens-espelho para servir de contraste. Temos dois pastores evangélicos, sendo que a maldade tem fé inabalável e, no final das contas, o melhor religioso é aquele que eventualmente tem dúvidas acerca da existência divina. Temos dois republicanos ferrenhos, mas um é herói e o outro é vilão, expondo bem o melhor e o pior dos republicanos: o herói busca a verdade doa a quem doer e não tem medo algum de nada, nem de ninguém. O vilão tem a certeza de ser um escolhido de Deus e, como eleito, dá-se ao direito de fazer o que quiser e bem entender, pautado nesta convicção esdrúxula. King inverte Dostoievski, e declara: “se Deus existe, tudo é permitido”.

Em nenhum momento a história decepciona, nem há pieguices criadas para agradar o leitor mais enternecido. Você vai sofrer, vai lamentar e, no fim das contas, vai ter que se virar com um trapo qualquer pra voltar pra casa, fazendo de conta que aquilo é um vestido. Pois, como bem constata Julia, a heroína republicana, muitas vezes o que nos resta são trapos.

E eles são melhores do que nada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s