Voltar no tempo. Matar Hitler.

No segundo semestre de 2013, alunos da Academia de Cinema de Baden-Württemberg apresentaram um filme como trabalho de formatura, suscitando tremenda polêmica em torno de seu conteúdo. O clip foi visualizado por mais de cinco milhões de pessoas em apenas alguns meses, e impressiona pela qualidade técnica. A polêmica se deve ao conteúdo: um carro Mercedes-Benz volta ao passado e atropela Adolf Hitler criança. Ao final, o espectador se depara com o slogan oficial do sistema de frenagem da companhia:reconhece perigos antes de eles acontecerem.

Pesado, né? O vídeo teve que ser retirado do ar e retornou apenas depois que a Mercedez-Bens se manifestou contra o teor da história, solicitando a introdução do aviso: “spot não autorizado”. Os estudantes alegam que fizeram um filme ficcional e não mataram ninguém. Mesmo assim, não se trata de “filme ficcional”, e sim de um spot publicitário no qual uma criança [Adolf Hitler] é assassinada por atropelamento. Sendo publicidade, parece-me que querem vender uma ideia, não meramente entreter. O filme segue abaixo, assista e tire suas próprias conclusões:

Clique aqui e assista ao comercial da Mercedes-Benz no Youtube.

Não entrarei na discussão ética em torno da proposta do spot publicitário. Limito-me a dizer que achei de péssimo gosto uma publicidade na qual uma criança – mesmo que tal criança seja Hitler – morre atropelada. Também não entrarei nos meandros teóricos sobre a viagem no tempo ser ou não possível. Isso dá muito pano pra manga pra outro post  curioso a ser escrito em breve.

O que me interessa neste post é abordar outra questão ética, de cunho mais amplo, que volta e meia surge como pergunta hipotética em mesas de bar e já foi trabalhada em algumas obras ficcionais: se você pudesse voltar no tempo para matar Hitler quando ele ainda era criança, você o faria?

A ética, conforme vivo insistindo, não é simples. Não se trata de um aglomerado de regras a serem seguidas. Tais manuais de conduta que nos dizem o que é certo e errado não demandam nenhuma reflexão filosófica, pedem apenas obediência. A ética dá mais trabalho, envolve dilemas, situações sem respostas simples. Muitas vezes nos vemos em situações nas quais não podemos escolher entre um caminho bom ou um ruim, mas sim entre dois males, ou entre um bem maior e social ou um bem menor, pessoal. Dou um exemplo banal de dilema ético: você encontra uma maleta com 100 mil reais, e dentro dela tem também acesso à identidade do dono da maleta. Seu filho precisa fazer um transplante renal urgente, e a cirurgia custa 100 mil reais. O que você faz? Parando pra pensar um pouco, você pode descobrir que há mais caminhos possíveis do que apenas “devolvo a maleta” ou “não devolvo a maleta”. É claro, a lei diz que devemos devolvê-la. Mas a lei também garante atendimento médico razoável para a população [incluindo seu filho], mas na prática isso não ocorre. Devo transgredir a lei para fazer valer um direito meu? Mas e o dono do dinheiro, qual a história dele? Tenho o direito de agir como um Robin Hood da causa própria? Note que enquanto estou preso no dilema e pensando no que faço, o tempo de vida da criança encolhe cada vez mais. Pois é, eu disse que dilemas éticos não são simples. E não, eu não vou dizer o que eu faria se encontrasse cem mil reais e meu filho precisasse deste dinheiro para uma cirurgia de emergência. Não costumo tratar dilemas éticos graves [minha honestidade versus a vida do meu filho] me enfurnando no plano hipotético e dando uma resposta simples.

Contudo, por incrível que pareça, “voltar no tempo para matar Hitler” não me parece um dilema de difícil solução. Eu não o mataria sob hipótese alguma. Vejamos as razões:

[Antes de explicitá-las, vale dizer que estou aqui assumindo como possível a viagem no tempo com o fito de alterá-lo. Ninguém saberia que eu o alterei, ou então eu poderia estar apenas criando uma linha temporal alternativa. Se você lê os quadrinhos da Marvel, sabe do que estou falando. Mas vamos às minhas razões.]

Se eu tenho o poder de voltar no tempo para matar Adolf Hitler, eu poderia retornar para um ponto anterior ao de sua fecundação e manipular os eventos de modo a impedí-la, impossibilitando o nascimento em si. Pra que atropelar se eu posso impedir o nascimento?

Problema 1: que garantias eu tenho de que a nova linha temporal por mim criada será melhor do que a que eu acabei de impedir? Eu teria que estar disposto a reescrever o passado incontáveis vezes, até que tudo se tornasse tão utópico quanto eu imaginei. Eu me converteria numa espécie de Deus trapalhão que rasga seus rascunhos até produzir a obra perfeita. E em algum momento eu me daria conta de que tal “obra perfeita” é a antivida, a inexistência, ou então uma sociedade distópica.

Problema 2: impedir o nascimento de Hitler nem de longe resolve o problema. É ingenuidade imaginar que todos os problemas do nazismo decorreram da figura única e singular de Adolf Hitler. Ele não era nenhum tipo de “super-ser” com poderes de comandar a vontade alheia. Se ele pôde fazer o que efetivamente fez, é porque foi amparado pelas massas. O problema é menos Adolf Hitler e mais todo o contexto do entorno e da época.

Problema 3: mesmo que eu credite tanto poder a Hitler, se eu tenho mesmo a capacidade de voltar no tempo, por que deveria matá-lo? Por que não utilizar os meus vastos recursos para dar outro destino a ele?

Problema 4: punir alguém por algo que a pessoa pode fazer simplesmente não é justo. É o tipo de política evidenciada no filme Minority Report, no qual policiais prendem indivíduos apontados por paranormais precognitivos como capazes de cometer crimes. Validar este sistema não me parece nada melhor do que o nazismo em si.

Problema 5: se eu acredito que Hitler “não tem conserto”, e que portanto não adianta tentar reeducá-lo, eu não sou muito diferente de Hitler. Era ele, afinal, quem acreditava em “essências sujas” e desejava higienizar o mundo. O motorista do Mercedes-Benz do spot publicitário, portanto, não me parece alguém melhor que Adolf Hitler. Acho até que eu prefiro a criança.

Ela estava, afinal, apenas empinando pipa.

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