A estratégia do discurso calunioso

Mais uma vez, meu texto se dirige aos evangélicos, partindo do mesmo pressuposto do post anterior: abrir o diálogo com quem se posiciona de maneira discordante. Mais uma vez, levanto a questão do direito de vocês afirmarem que práticas homossexuais são pecaminosas, considerando que isso se encontra escrito na Biblia. Estou admitindo, ainda que como exercício de imaginação, que a Biblia é a palavra de deus.

Indo diretamente ao ponto: antigamente, os pastores e sacerdotes liam a Bíblia. Agora, resolveram reescrevê-la, adicionando o que lá não está.

Mas, antes, me permitam algumas digressões:

Para aqueles que crêem, há duas abordagens mais comuns em relação a Deus: numa abordagem separatista, Deus criou o mundo e o largou de mão, e tudo o que acontece por aqui é responsabilidade nossa. No final dos tempos, este Deus julgará os atos de seus filhos. A outra abordagem, com a qual simpatizo – ainda que não seja religioso, tampouco cristão – é a inclusiva: se Deus existe, tudo o que acontece está de acordo com sua vontade, pois ele é onipotente, onipresente e onisciente. Se for qualquer coisa menos do que isso, não é Deus.

Para Silas Malafaia e muitos pastores, a abordagem é claramente separatista. Eles não pregam a Biblia verdadeiramente, eles se valem dos trechos que lhes convêm para convencer as pessoas daquilo que eles acreditam. E, não raro, dizem coisas que não estão na Biblia. Sobre homossexuais, as mais constantes: 1. Gays são pedófilos. 2. Gays são influenciados pelo diabo. 3. Gays sofrem de encosto de pomba-gira. Nenhuma destas três coisas está em parte alguma do livro sagrado cristão. Eles tiraram da cabeça deles.

Consequências? Muitas.

Vamos a um exemplo ilustrativo: a foto abaixo mostra o jovem estadunidense Stetson Johson, de 18 anos (sim, ele tem apenas 18 anos, apesar da aparência de quem envelheceu uns 15 anos, mas também pudera…). Stetson cometeu um erro no último dia 17 de abril: paquerou um cara que não gosta de homens. Este cara poderia ter simplesmente dito “não curto homens”, como qualquer ser humano civilizado, mas não foi isso o que ele fez. Junto com um amigo, ele espancou severamente Stetson, munido de tacos de baseball, ajudado por duas amigas que se revezavam com uma máquina de choques elétricos, aplicando descargas nos órgãos genitais do garoto.

Já pensaram se nossa reação a qualquer paquera por parte de alguém que a gente não curte tivesse essa resposta? Mas ele e sua turba não pararam por ai! Resolveram tatuar rapist (estuprador) e I like little boys (eu gosto de garotinhos), na testa e no peito de Stetson. Para ocultar a tatuagem na testa, Stetson tatuou um código de barras por cima.

E é ai que está o ponto: não tatuaram Stetson porque ele de fato seja estuprador ou assedie crianças. O cara que foi paquerado por Stetson, diga-se de passagem, tem mais de 20 anos de idade. Mas o fato é que um discurso muito recorrente por parte de alguns pastores pentecostais (e alguns políticos, como Bolsonaro) envolve uma “colagem” entre homossexualidade e pedofilia. Eles querem fazer crer que uma coisa implica na outra, o que ultrapassa qualquer “liberdade de opinião” e entra pelo viés da calúnia pura e simples. Estes senhores reclamam que têm sua “liberdade de opinião” tolhida, mas isso não é verdade. O que eles oferecem não é “mera opinião”. Eles afirmam calúnias. E calúnia, em nosso país, é violência moral, é crime.

Não me parece que este discurso seja ignorante, ele me parece carregado de intencionalidade. Qualquer pessoa razoável sabe que “desejar o mesmo sexo” não significa necessariamente “desejar crianças”. Há homossexuais que abusam de crianças, tanto quanto há heterossexuais que fazem o mesmo. Nenhum estudo comprova maior incidência de gays pedófilos do que heterossexuais pedófilos. O que se verifica, em verdade, é que é muito mais comum homens (tanto homo quanto heterossexuais) que abusam de crianças do que mulheres. Eventualmente, surge algum estudo que tenta “comprovar” que a maioria dos abusadores de crianças são gays, mas depois se verifica que se trata de estudo com dados forçados, ignorando de propósito os heterossexuais igualmente abusadores.

O objetivo? Causar histeria pura e simples.

O curioso é que tanto Malafaia quanto Bolsonaro, duas pessoas que continuamente “atrelam” homossexualidade a pedofilia, se dizem contra a violência física perpetrada a homossexuais. O discurso é claramente sonso, na medida em que eles tentam convencer a população de que, se o sujeito é gay, ele irá abusar de crianças. E o resultado pode ser visto no corpo de Stetson Johnson. E se você acha que o exemplo não é bom por ser estadunidense, não se iluda: o que Malafaia e Bolsonaro fazem é copiar o discurso de grupos de fanáticos religiosos dos EUA, especialmente a Igreja de Westboro, que protagoniza a campanha semanal intitulada God hates fags (“Deus odeia bichas” – que beleza!). E nós temos os nossos exemplos de Stetson Johnson! Quando um homossexual é agredido com golpes de lâmpada na cara, socos, garrafadas, quase sempre o agressor argumenta que o sujeito “deu em cima dele”. Mas é assim que se reage a uma cantada? A pessoa não sabe dizer “não”? Vale dizer que, em quase todas as vezes, o argumento “sofri uma cantada” é mentira descarada. E, mesmo que fosse verdade, só piora as coisas: qualifica a agressão como sendo por motivo fútil. Pra quem não sabe o que é “agressão qualificada como motivo fútil”, cito Damásio de Jesus:

MOTIVO FÚTIL: É o insignificante, apresentando desproporção entre o crime e sua causa moral”. É, pois, o motivo banal, ridículo por sua insignificância. Exs.: incidente de trânsito; rompimento de namoro; pequenas discussões entre familiares; fato de a vítima ter rido do homicida; discussão a respeito de bebida alcoólica, etc.

Não estou dizendo que Bolsonaro, Malafaia, Julio Severo e sua trupe sejam “responsáveis” por crimes do gênero. No meu entender, o responsável por um crime é quem o perpetra, e quem tem que ser punido por arrebentar a cara de outro ser humano, é quem agiu assim. Eu diria que Bolsonaro, Malafaia e outros tantos são instigadores morais, e o crime que eles cometem é de outra ordem: calúnia.

Vejam o que recebi hoje: panfleto supostamente distribuido pela equipe de Bolsonaro:

SE este material é mesmo da equipe de Bolsonaro e SE ele não tiver problemas mentais, a alternativa é que ele tem a intenção clara de distorcer os fatos para causar histeria nas pessoas.

Não está escrito na Biblia que homossexuais são pedófilos.

Não está escrito na Biblia que homossexuais são “doentes”.

Não está escrito na Biblia que homossexuais são “possuidos pela pomba gira” nem por “demônios”.

O que está escrito na Biblia é que o ato homossexual é “abominável”. Isso parece pesado? Saiba que é por conta da tradução. A mesma palavra poderia ser traduzida como “impuro”, termo que tem densidade bem menor. Mas se você quer manter o termo “abominável”, saiba que outras coisas são igualmente citadas como “abomináveis” na Biblia: comer frutos do mar, por exemplo. Semear um campo com dois tipos de sementes também. Tecer um pano com dois tipos de fibra, idem. Há quem sugira que tais instruções sobre o que é puro ou impuro eram princípios sanitários válidos para a época. Para mim, faz sentido.

Mas, mesmo que você queira considerar que tais orientações valem no sentido literal, então seja coerente: continue a dizer que a homossexualidade é abominável, mas – em nome da Biblia – não coma mais frutos do mar, não se vista com tecidos feitos por dois tipos de fibra (jogue metade de seu armário fora), não aceite sementes distintas cultivadas no mesmo campo. Há muitas outras coisas, e não irei detalhá-las. Recomendo que você LEIA A BIBLIA.Se você resolver argumentar que muito do que está lá fazia sentido numa época e não mais na atual, então você está interpretando o livro, muito bem, você não é favorável à literalidade, mas pretende fazer uma hermenêutica. Concordo contigo. Então seja justo e faça o exercício de interpretação em tudo, não apenas na parte de comer camarões.

De resto, espero que você, cristão, comprometido com a verdade, cobre de seus pastores que citem mais a Biblia e não aquilo que eles tiram de suas cabeças. Espero também que você, comprometido com a verdade, não se deixe manipular por quem evidentemente tenta ofender a sua inteligência distorcendo fatos, proferindo calúnias, com o intuito de se alavancar politicamente ou ter “maior poder” dentro de uma igreja específica. Se somos diferentes naquilo que cremos, ao menos o amor pela justiça nos aproxima. Ou, pelo menos, assim espero.

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