A utopia aquariana

Este texto foi originalmente escrito para a disciplina de pós-graduação “Utopia e Realismo” na Universidade de São Paulo

When the moon is in the Seventh House

And Jupiter aligns with Mars

Then peace will guide the planets

And love will steer the stars

This is the dawning of the Age of Aquarius!

Harmony and understanding

Sympathy and trust abounding

No more falsehoods or derisions

Golden living dreams of visions

Mystic crystal revelation

And the mind’s true liberation

Aquarius!  Aquarius!

Let the sun shine, Let the sun shine in

(Aquarius – Hair)

SUSTENTAÇÃO METAFÍSICA DA UTOPIA ASTROLÓGICA

A suposição de que existe um relógio cósmico e de que a vida na Terra é governada por ciclos bem definidos é antiga e se faz presente tanto na filosofia ocidental quanto na teologia oriental. Vale citar Pitágoras (570-500 A.C.), expoente da tese de uma harmonia macrocósmica que se reflete na vida ordinária. Enquanto a escola filosófica de Mileto identificava a arché num elemento físico, Pitágoras acreditava que o fundamento das coisas residia no número. Números, para Pitágoras, não eram entes abstratos, mas elementos essenciais da realidade. Por esta razão, o aspirante à escola pitagórica deveria já ter estudado Aritmética, Geometria, Astrologia e Música, as 4 ciências fundamentais que permitiriam a compreensão da Tetratkys, ou harmonia das esferas. Para a metafísica pitagórica, a alma humana se inclina ao bem, mas o mundo material a corrompe. A superação da corrupção se daria por intermédio de disciplinas ascéticas, meditações e alimentação específica.

Por todo o exposto, Pitágoras poderia ser classificado como um utopista. Sua filosofia tinha por objetivo a reforma moral da sociedade, por intermédio de práticas semelhantes às das tradições órficas. Defendia a possibilidade de alcançar um nível de consciência que tornaria o adepto acima de toda corrupção. Ele, contudo, não deixou um legado escrito, de modo que é difícil discernir o que é realmente autoria dele do que foi criado pela geração posterior de seguidores.

Outro expoente de uma metafísica pautada na idéia da sociedade como um reflexo da harmonia macrocósmica foi o italiano Campanella (1568-1639). Diferente de Pitágoras, Campanella deixou uma detalhada obra escrita, a “Cidade do Sol”. Seu objetivo era construir nas montanhas de Sila uma comunidade exemplar, de acordo com os princípios definidos em sua obra. Em sua proposta, Campanella se vale de teorias de geometria sagrada para desenhar uma cidade definida a partir de 7 círculos sobrepostos que atuariam como uma antena capaz de captar influências astrais positivas. O nível de detalhamento da proposta urbanística da utopia de Campanella só é superado pelo detalhamento das normas comportamentais impetradas aos cidadãos. Campanella defende claramente a eugenia, ao afirmar que é possível melhorar a raça humana a partir de acasalamentos definidos não pelo desejo dos parceiros, mas por determinação sacerdotal. A Cidade do Sol, portanto, exerceria férrea vigilância estatal sobre seus habitantes, para que a procriação só se desse entre parceiros que se equilibrassem a partir de critérios astrológicos e biológicos aparentes: uma pessoa muito alta deveria ter filhos com uma pessoa muito baixa, por exemplo. A homossexualidade é considerada criminosa e teria como pena a morte. O momento da concepção deveria ser marcado antecipadamente para que o feto recebesse benéficas influências astrais. Resgatando uma tese elaborada por Platão em “A República”, Campanella preconiza que a propriedade privada e o conceito de “família” deveriam ser abolidos da Cidade do Sol, dando lugar a um estilo de vida estritamente comunitário. Temos aqui a enunciação clara de que os males sociais têm origem na propriedade privada, sendo a família uma manifestação das idéias de posse. Todos os jovens coetâneos na Cidade do Sol seriam irmãos uns dos outros, e chamariam de “pai” todos aqueles que fossem quinze anos mais velhos.

Citamos Campanella e a Cidade do Sol para sustentar a tese de que sua utopia retorna em diversas comunidades alternativas brasileiras e, apesar de algumas diferenças, o norte destes agrupamentos é o mesmo. Para estas comunidades, existiria um modelo ideal de cidade e política e, para tal ideal ser viabilizado, três coisas são fundamentais: 1. Abolição da propriedade privada; 2. Uma estrutura que reproduza em escala mundana a harmonia macrocósmica; 3. Uma ética sexual, sendo que na quase totalidade das vezes o que se verifica é uma norma disciplinar sexual derivada de determinações metafísicas, sem liberdade individual e subseqüente sujeição do corpo individual ao corpo maior do Estado. Cabe salientar que esta terceira peculiaridade é duramente criticada por Reich em seu livro “Psicologia de Massas do Fascismo”. Ao contrário de criar uma utopia, tal inculcação mística constituiria, para ele, o mecanismo certeiro de elaboração de um Estado fascista. A submissão sexual dos indivíduos a tais regras metafísicas seria o exemplo de uma distopia perpetrada por um governo totalitário orwelliano.

INDIOS BORORO: UMA CIDADE DO SOL

É notável verificar que a metafísica de uma política astrológica teorizada por Campanella pode ser encontrada entre tribos indígenas brasileiras. No Brasil, temos os índios Bororo, para os quais as constelações são consideradas elementos norteadores fundamentais para a construção e estabelecimento de suas aldeias. O fato é que, partindo de hipóteses lógicas ou de percepções intuitivas, todas as culturas do mundo se defrontaram com a questão do tempo, do espaço e do céu como elementos interativos na construção de um espaço urbano e político. Dentre as culturas brasileiras existentes, o estudo dos bororos merece destaque pelo fato de que, para eles, praticamente toda a cidade e sua estrutura social se pautam em fundamentos astronômicos. O povo Bororo sempre se valeu de tais observações tanto para contar a passagem do tempo quanto para organizar o espaço tribal e a estrutura social, com seus clãs. Tal fato foi constatado em 1936 por Claude Levi-Strauss (1908-2009), numa visita realizada à aldeia Kejara, no sul do Mato Grosso. Em 1982 e 1983, um pesquisador da Universidade de Princeton, Stephen Fabian, patrocinado pela Comissão Fullbright e afiliado à USP, também realizou excursão às aldeias Bororo.

As aldeias Bororo são, à sua maneira, a realização prática (com diferenças, evidentemente) da tese sustentada por Campanella: uma cidade governada pela harmonia das esferas celestes, não apenas no âmbito arquitetônico, como também – e principalmente – no âmbito das relações sociais. Não se limitando a criar uma mitopoética a partir das observações estelares, o povo Bororo tem a peculiaridade de planejar e orientar os desenhos de suas aldeias, assim como as relações sociais, de acordo com padrões estelares. Assim como na obra de Campanella, o povo Bororo crê na possibilidade de captação de forças estelares a partir das estruturas arquitetônicas. O calendário Bororo é pautado pelos posicionamentos estelares, que marcam eventos culturais importantes. Assim como na Cidade do Sol, os membros da tribo não podem realizar casamentos com quaisquer outros membros, e sim com indivíduos específicos, de acordo com a classificação estelar de seus clãs.

O povo Bororo se localiza no centro geodésico da América do Sul, onde hoje se localiza o Estado do Mato Grosso. Dispersos numa grande área ao sul da bacia de drenagem amazônica, a oeste do rio Araguaia, na área de drenagem do rio Paraná, os bororos foram a tribo mais numerosa deste território. O território Bororo original atingia a Bolívia, e era trezentas vezes maior do que o atual. Stephen Fabian constatou as seguintes implicações das observações astronômicas na vida dos bororos: 1. Contagem diurna do tempo, de acordo com a posição de Meri (Sol); no turno noturno, contagem do tempo de acordo com a posição de Ari (Lua), quando esta aparece. Quando Ari não surge, o tempo é contado de acordo com estrelas mais visíveis; 2. O calendário deriva do ciclo sinódico da Lua; 3. A contagem das estações é realizada de acordo com as Plêiades, batizadas Akiri-doge, importantes por conta de seu brilho singular. O momento em que as Plêiades nascem, antes da aurora, representa um marco especial para atividades culturais significativas, como ritos de maturidade e ritos funerários; 4. Os elementos constituintes da aldeia são dispostos em conformidade com o trajeto solar; 5. As posições de um clã na circunferência da aldeia dependem de posições estelares. Exemplo: no caso do clã Paiwoe, a estrela Ceti (chamada de Tugiga Kiwu) ascende por sob a casa deste clã. Assim sendo, qualquer casa do clã Paiwoe deve ser erigida de modo a respeitar a ascensão reta de Tugiga Kiwu, a fim de receber suas energias;

Os bororos são um relevante exemplo de comunidade cuja organização estrutural é realizada em função direta do relógio cósmico, e que visa a respeitar os atributos simbólicos estabelecidos em torno dos astros. Para os bororos, a aldeia não se limita ao espaço terrestre, mas é um reflexo do espaço celeste. As pessoas que habitam a aldeia não se dispõem aleatoriamente nos espaços geográficos. As casas, assim como as disposições dos clãs obedecem fielmente aos posicionamentos estelares. Levi-Strauss e Fabian descrevem em diferentes relatos os bororos como sendo um povo extremamente amigável, desprovido de malícia e agressividade. E ainda que seja tentador utilizar o exemplo dos bororos para exemplificar a idéia do “bom selvagem” de Rousseau, é improvável que tal associação fosse crível para o este filósofo. Mais provavelmente, ele defenderia que os bororos seriam algo próximo do seu conceito de “bom selvagem”, mas estariam eles também corrompidos. Afinal, a ordem social, mesmo próxima à natureza, não seria natural. É um erro comum considerar que o “bom selvagem” de Rousseau possa ser encontrado em tribos indígenas, por mais amistoso que seja o povo. Em verdade, o “bom selvagem” se localiza perdido no tempo, sendo antes uma lembrança mítica do que uma entidade identificável, histórica ou espacialmente.

O CONCEITO DE ERAS E O RELÓGIO CÓSMICO

No que concerne às comunidades orientalistas contemporâneas em território brasileiro, é essencial compreender o conceito metafísico basal que as norteia, igualmente astrológico: o relógio cósmico. Vale ressaltar que tanto o ocidente quanto as tradições orientais, de diferentes modos, discorreram sobre grandes ciclos cósmicos. A partir do entendimento deste conceito, sustentamos que tais comunidades podem ser classificadas como “utopistas”, dentro dos critérios estabelecidos em nossas reuniões de pós-graduação no segundo semestre de 2010.

Para os orientalistas, o relógio cósmico tem quatro tempos, chamados yugas. Os 4 yugas são equivalentes às Eras, conforme denominadas pela tradição helênica: a Era de Ouro (krita), de Prata (treta), de Cobre (dwapara) e de Ferro (kali). Para as comunidades orientalistas, é consensual a tese de que a humanidade atual se encontra no kali yuga, sendo esta a mais degenerada de todas as Eras. A passagem de krita para kali ilustra um processo de degeneração, que vai do momento mais luminoso e elevado ao momento mais decadente. Ao final da degeneração máxima, o processo é reiniciado a partir de krita. A oscilação, portanto, não se daria como uma onda que decresce e cresce, mas sim como uma onda que decresce até seu ponto de arrebentação, dando lugar a outra onda que subitamente surge do ponto mais alto. Ou seja, a passagem de máxima iluminação para máxima treva é gradual, mas a passagem de máxima treva para máxima iluminação é súbita.

Há uma diferença de durabilidade entre os diferentes yugas. Apesar de o processo degenerativo ser inescapável, quanto mais inferior for o yuga, menor a sua duração. A junção de todos os yugas forma um Manvantara, cuja representação numérica é o 10, como na Tetraktys pitagórica. Cada Era que compõe o Manvantara representa uma parcela do número 10, na seguinte proporção: 4 para krita, 3 para treta, 2 para dwapara e 1 para kali. De acordo com a tradição shivaísta, o tempo total do Manvantara é de 64800 anos, sendo kali o período mais curto, cuja duração é de 6480 anos. O tempo dos outros períodos é definido de acordo com os múltiplos de 2 (12960 anos,dwapara), 3 (19440 anos, treta) e 4 (25920 anos, krita). Há outras versões para a duração dos yugas, considerando períodos dez vezes maiores do que todos os aqui listados. A versão shivaísta, contudo, é a mais aceita pela comunidade estudada, Nova Gokula.

Curiosamente, o tempo total do Manvantara shivaísta equivale a quase exatamente duas vezes e meia o ciclo de precessão dos equinócios estudado pelos antigos astrólogos ocidentais. O ciclo precessional tem duração aproximada de 25800 anos e decorre da mudança gradual do eixo de rotação terrestre em relação às estrelas. Deste modo, uma precessão inteira seria marcada pela Era de Ouro,  enquanto os demais yugas marcariam uma precessão e meia. A astrologia ocidental também defende a tese das Eras, mas de modo diferente dos orientalistas. Para a astrologia ocidental, cada ciclo precessional de 25800 anos pode ser dividido em 12 Eras astrológicas. Seria possível identificar em qual Era estamos, de acordo com a constelação celeste para a qual o ponto vernal do eixo terrestre aponta. Para a tradição ocidental, a Era é algo fisicamente mensurável, e o ponteiro é o ponto vernal: origem de contagem da ascensão reta, uma coordenada azimutal equatorial. No presente momento (2010), o ponto vernal aponta para a constelação de Peixes, e aproximadamente no ano 2160 passará a apontar para a constelação de Aquário. Vale aqui ressaltar que o movimento precessional é retrógrado, ou seja, o ponto vernal aponta para as constelações no sentido horário.

Comparando os conceitos orientalistas com a astrologia ocidental, é possível compreender de onde deriva a crença utópica de que a Era de Aquário será a Era da sociedade ideal. Isso deriva menos das características simbólicas atribuídas ao signo em si, já que todos os signos possuem lados luminosos e trevosos, e mais ao fato de que a Era de Aquário em tese ocorreria simultaneamente ao final do kali yuga. Em seguida, entraríamos num novoManvantara, quando durante mais de 25800 anos viveríamos no paraíso, mesmo com a mudança das Eras da astrologia ocidental.

Quanto à comunidade orientalista “Nova Gokula”, assim como em relação a outras comunidades alternativas, constatamos que todas sustentam que: 1. Os males da humanidade são produzidos, e não inatos; 2. A causa dos males da humanidade tem razão única, isto é, o movimento do relógio cósmico, contra o qual não é possível lutar, mas é possível administrar; 3. Caminhamos inexoravelmente para uma iminente mudança de Era, em que a humanidade retornará a uma existência áurea e libertará sua verdadeira essência, que é boa.

Há, contudo, ao menos um elemento realista nestas comunidades, já que elas afirmam não ser possível – no yuga atual – fazer mais do que um controle de danos, administrando os males, sendo impossível eliminá-los. Tal idéia se apóia num lastro determinista, pois se o Cosmo é um relógio preciso e taisyugas são inescapáveis, resta à humanidade submeter-se à passagem das qualidades do tempo. A despeito de a humanidade como um todo estar submetida à irrevogabilidade do relógio cósmico, seria possível criar agrupamentos humanos que, estando idealmente isolados da sociedade comum e praticando técnicas disciplinares, seriam capazes de administrar os efeitos degenerativos de kali. Por essa razão, Nova Gokula se vê como um núcleo preparatório para o retorno de krita. Tais comunidades demonstram ter consciência de que também se encontram contaminadas pelos efeitos degenerativos de kali, muito embora numa intensidade menor, justamente por conta dos procedimentos disciplinares adotados: alimentação específica (vegetariana), abolição da propriedade privada e políticas de controle da sexualidade.

A comunidade Nova Gokula, localizada no Estado de São Paulo, ocupa uma área de 119 hectares na Serra da Mantiqueira e é uma área de preservação ambiental. Deriva o seu viver comunitário a partir do orientalismo importado para o ocidente por seu líder maior, Prabhupada (1896-1977), nascido em Calcutá. A primeira comunidade ocidental pautada nos ensinamentos de Prabhupada se localizava no oeste da Virgínia, nos EUA, criada em 1968. Rapidamente a comunidade conseguiu adeptos, sobretudo entre os hippies, identificados com a proposta do flower power – por uma sociedade sem violência, e baseada no amor. O sucesso das comunidades orientalistas de Prabhupada no final dos anos 60 pode ser explicado pelo fato de que tanto os orientalistas quanto os hippies ocidentais acreditavam numa idéia comum: a de que a sociedade ocidental é distópica, mas a humanidade vive um momento de transição para uma Nova Era e que o fim da miséria é inexorável. Os orientais crêem no advento de krita, e os ocidentais esperam pelo advento da Era de Aquário.

Todavia, não tardaram a surgir conflitos. Ao contrário do estilo de vida hippie, que preconiza a liberdade sexual e até mesmo o uso de substâncias alucinógenas como instrumentos de expansão da consciência, os ensinamentos orientalistas de Prabhupada gravitam em torno de práticas ascéticas em que o controle da energia sexual é fundamental. À parte algumas crenças em comum, a incompatibilidade insolúvel é a política sexual, que no caso de Nova Gokula guarda similaridades com a proposta da Cidade do Sol de Campanella: o sexo é para a reprodução, e os sacerdotes indicam casais compatíveis a partir de parâmetros metafísicos. Assim como na proposta de Campanella, todas as mulheres acima de determinada idade são chamadas de “mãe”. Já para os hippies, a utopia é reichiana, preconizando a liberdade sexual. Como ponto comum, ambos os grupos se aproximam de Marx: a propriedade privada seria abolida na sociedade ideal.

Qualquer cidadão pode se tornar um residente de Nova Gokula, contanto que compreenda e aceite condições extremamente rígidas e detalhadas. A alimentação vegetariana constitui clara convergência incidental com uma das propostas de Rousseau, que se refere ao carnivorismo como incondizente com a verdadeira natureza humana. Tal observação se encontra na nota H de seu Discurso, onde ele afirma: “(…) me basta haver mostrado, nesta pequena parte, o sistema mais geral da natureza, sistema que fornece uma nova razão de tirar o homem da classe dos carnívoros e de o colocar entre as espécies frugívoras.”

Rousseau em momento algum prega o retorno ao estado de natureza, mas afirma que o cultivo de hábitos alimentares vegetarianos possibilitaria maior proximidade com tal estado. Segundo a teologia védica, é impossível retornar voluntariamente ao estado perfeito de krita, ao menos não enquanto não for a hora, pois tudo se sujeita ao relógio cósmico. Contudo, é possível cultivar um “estado de aproximação” por intermédio de práticas alimentares vegetarianas, pois a ingestão de carne animal instigaria a crueldade já tão intensa em kali yuga. O estilo alimentar faz, portanto, parte da ética da comunidade, assim como fazia também parte da proposta de Rousseau.

Na parte III do estatuto, “Da Residência”, verifica-se também uma série de exigências muito específicas que visam a eliminar o que é chamado de “ilusão da individualidade”: vestimentas padronizadas, raspagem dos cabelos para os homens, penteados que ocultam os cabelos para as mulheres, além da prática de cânticos de mantras por horas a fio, a fim de que a mente mundana se conecte com Deus. Todas as pessoas que fazem parte da comunidade, nela entram por livre e espontânea vontade, mas estão sujeitas a um regimento interno que pode excluí-las do grupo em caso de reincidência de contravenções. Os residentes parecem muito felizes, e o agrupamento demonstra quase ausência de individualidade, não havendo traços peculiares de caráter que distinguem uma pessoa da outra. Apenas nos recém-egressos é possível verificar traços comportamentais distintivos.

Por todo o exposto, é possível concluir que Nova Gokula é um ilustração real, contemporânea, de um pensamento utopista com convergências incidentais com Campanella, Rousseau e Marx, todavia distópica e com inclinações fascistas a partir de uma perspectiva reichiana.

BIBLIOGRAFIA

Campanella, Tommaso – A Cidade do Sol – Editora Ícone, 2002.

Darsanam, Kaivalya – A Ciência Sagrada – Self-Realization Fellowship, 1949.

Guénon, René – Formas Tradicionales y Ciclos Cósmicos – Editora Obelisco, 1984.

Lanzi, Claudio – Ritmi e Riti: Elementi di Geometria Pitagorica – Simmetria, 2008.

Marx, Karl – Manifesto Comunista – Boitempo Editorial, 2007.

Reich, Wilhelm – Psicologia de Massas do Fascismo – Martins Fontes, 2001.

Rousseau, Jacques – Discurso Sobre A Origem e Os Fundamentos da Desigualdade Entre Os Homens – Martins Claret, 2009.

http://www.novagokula.com.br/, em 26 de novembro de 2010.

 

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