Carta aberta a Marina Silva

Cara candidata Marina,

Eu, que já cheguei a dizer que só votaria na senhora para a presidência do planeta Pandora, onde lhe seria possível reinar impávida entre bromélias alienígenas e samambaias fluorescentes, mudei de idéia e resolvi lhe dar meu voto. Com esta carta – meio longa, admito – eu pretendo explicar minuciosamente minhas razões não apenas para a senhora, mas para qualquer pessoa que tiver tempo e curiosidade de ler esta declaração. Sei que é bem provável que a senhora venha a ler esta carta por conta de nosso futuro encontro na Universidade de São Paulo. Creio que ela lhe divertirá numa eventual viagem tediosa de avião. Mas se não tiver paciência, pode jogá-la no lixo – pelo menos, dá pra reciclar!

Decidi lhe dar meu voto no primeiro turno. Num eventual (e altamente desejável) segundo turno, ainda não sei. O fato é que eu gostaria muito que houvesse um segundo turno, pois há muita coisa que as pessoas precisam discutir ainda, e pelo visto só haveria debate razoável se o segundo turno envolvesse as duas mulheres desta eleição. A testosterona parece endoidar muita gente.

Sabe, Marina, em geral os ditados populares guardam um tanto de sabedoria, mas há um que me parece tosco e tolo. É o que diz que “política não se discute”. Por que não? Talvez porque o povo brasileiro ainda não tenha se acostumado a lidar com discussões políticas de uma forma minimamente racional, mas a gente chega lá!

Cara candidata, eu tinha pensado seriamente em votar no José Serra. Ele é um bom gestor e é uma pessoa sensível às necessidades dos menos afortunados. Ele mesmo, aliás, vive evocando as semelhanças entre si e o presidente Lula, no que concerne a uma infância pobre, essas coisas. É um homem de inteligência acima da média. Ninguém entra na Politécnica da USP com a facilidade que ele entrou sem ter imensa capacidade de raciocínio lógico (virtude que eu costumo admirar imensamente). Qualquer pessoa honesta que estude a história deste senhor, por menos que goste dele, admite que seu percurso é impressionante. Foi considerado perigoso pelos ditadores militares que tomaram o país de assalto. No Chile, ajudou a proteger e refugiar vários perseguidos pelo ditador Pinochet. Teve a coragem de voltar para o Brasil, ainda que exilado, antes da Lei de Anistia. Fez muita coisa boa por nosso país quando foi Ministro da Saúde: implantou um programa de combate à AIDS que se tornou modelo em vários países, incentivou os medicamentos genéricos, criou e incentivou a política anti-tabagista… Poucas vezes tivemos um ministro da Saúde tão bom. Por essas e outras, e principalmente por apreciar a idéia de alternância de poder, pretendi honestamente votar nele por um bom tempo. Veja que pretendi votar nele por razões positivas, e não por “odiar Dilma e o PT”. Saliento isso, porque tem muita gente que vota no Serra por razões negativas. Voltarei a este assunto mais adiante, perdoe-me as digressões, neste sentido eu sou um pouco machadiano, meio Brás Cubas.

Se decidi votar na senhora, foi um pouco por seus próprios méritos e muito por conta de seus eleitores. Se decidi não votar mais no Serra, foi um pouquinho por culpa dele e muito por conta de seus eleitores. Vou explicar: é dito que um candidato representa o povo. Os que conheço como seus eleitores, Marina, são pessoas de profunda consciência ecológica, gente de paz. Defendem as causas do Partido Verde e são preocupadas não apenas com o meio ambiente exterior, como também com o ambiente interior. Afinal, não adianta muito salvar a Amazônia sem realizar uma profunda ecologia interna, espiritual. Dentre seus eleitores, há religiosos de várias correntes e também deístas mitigados, ateus e agnósticos [como este que ora escreve]. Admito que minha antiga antipatia pela sua pessoa deriva do fato de sabê-la evangélica da Assembléia de Deus. Mas isso era um preconceito bobo da minha parte. Porque, investigando melhor você, vi que não há traços de fanatismo religioso em sua pessoa. Ou, pelo menos, assim me parece. Seria fanatismo ateu da minha parte não lhe dar meu voto por conta deste detalhe. Minha resistência tem razão de ser, a senhora há de considerar: a bancada evangélica na política brasileira usa de uma retórica pérfida, ignorando que nosso país é um Estado laico. Apesar de sempre ter sido pró-Partido Verde, detesto fanatismo religioso. Mas vê-la como fanática seria o mesmo erro que cometem muitos religiosos, ao verem ateus como pessoas sem ética. E, como eu disse, seus eleitores são ótimos! Eu me identifico com eles, que não perdem tempo tentando atacar os outros candidatos. Tudo o que fazem é falar bem de você e de suas causas (que são as causas do PV). Não encheram minha caixa de e-mails com calúnias, difamações, mentiras e inverdades nem sobre Serra, nem sobre Dilma. Se volta e meia me mandam e-mails, é para falar bem de você e de suas propostas. Vários me mandam e-mails altamente construtivos, com dicas sobre coisas mínimas que podemos fazer para melhorar o ambiente, para cuidar da saúde, em suma, tornar o mundo um lugar melhor.

No que tange ao Serra, muito embora eu o ache um excelente candidato (não sem falhas, como todos nós), tomei horror à atitude de muitos de seus eleitores.  Sei que nem todos os pró-Serra agem do mesmo jeito, mas a maioria dos que me circundam tomam atitudes que são uma vergonha. Mal lembram das virtudes do Serra, mas vivem a lembrar dos supostos defeitos da candidata Dilma. Mal apontam para os imensos feitos do Serra, mas vivem a lembrar das falhas do Partido dos Trabalhadores. Desde o começo desta campanha, entulharam-me o e-mail, a paciência e o juízo com uma fixação obcecada, levemente psicopática, contra a candidata Dilma. Conheço gente – gente bem próxima a mim! – que quando se diz serrista, ao invés de falar bem do Serra, fica uma hora a falar mal da Dilma. E como se transtornam! Os olhos esbugalham, tremem levemente, a pupila dilata, alguns chegam a ficar com uma baba seca no canto da boca, fazendo-me lembrar cães raivosos. Coisa horrorosa.

Primeiro, diziam que Dilma era feia, medonha (como se fossem todos top models). Depois que Dilma fez intervenções estéticas, passaram a dizê-la “botocada e esticada”. Isso é argumento? Parece coisa de quando eu tinha 12 anos de idade e vencia uma discussão chamando meu interlocutor de “feio”, fazendo-o chorar. Depois passaram a divulgar que Dilma, no passado, foi terrorista, assaltante de bancos, agitadora. Ora, mas se esquecem que tudo isso foi feito dentro de um contexto de combate à ditadura? Tiro o meu chapéu para cada ato bandalheiro desta mulher, cometido no passado! Sou contra a violência, mas mais contra ainda pacifismo passivo. Uma mulher que agüentou ser torturada pelo DOPS, pela Opan, que ficou presa por ter lutado pela liberdade de um país seqüestrado por machos malucos não tem de mim menos do que admiração. Por fim, quando nenhum dos argumentos anteriores colou, chegaram a usar a retórica do câncer: por estar doente, Dilma seria um candidato inconfiável, que poderia não terminar o mandato. Divulgam inclusive falsas notícias sobre seu estado de saúde: ela piorou, o câncer está cada vez mais terrível, etc. Isso é mentira, é golpe baixo, e eu sei porque tenho meus contatos. Ademais, isso lá é argumento? Uma pessoa com câncer, se bem cuidada, tem uma sobrevida de muitos e muitos anos.

Além disso, presenciei – não sem lamentar – outras declarações absurdas proferidas por pessoas próximas, amigas, a quem respeito, gente inteligente. Uma delas escreveu no Facebook que desejava “morte lenta para os eleitores de Dilma”. Deu-me vontade de enviar o perfil desta mulher para minha querida Ilana Casoy, que escreve verdadeiros compêndios sobre psicopatas. Outra, pró-Serra, jamais fala de seu candidato. Apenas ataca os outros. Uma garota que para minha vergonha se diz “minha fã” declarou, também no Facebook, que deveríamos separar o Sul-Sudeste daquela “merda de Norte-Nordeste, lugar cheio de gente ignorante, eleitores do Lula” [considerando seus incríveis erros de português, lhe faria bem um curso de reforço com minha antiga professora, a também nordestina e cultíssima Dilza Coelho].Alguns destes serristas parecem ter verdadeiro horror à melhoria das condições sociais dos pobres. Primeiro, senti nojinho. Depois, passei a sentir nojinho master. No fim das contas, estava com asco intenso. Obviamente, nem todo serrista é assim, mas os que são agem com tanta intensidade que me encheram o saco. Não vi nada parecido entre os eleitores da Dilma, do Plinio, e nem nada vagamente similar entre seus eleitores, Marina. Agradeça a eles: foram eles que me conquistaram.

Ainda assim, meu primeiro impulso não foi o de votar na Dilma e sim no Serra, conforme já declarei. Mas Serra tem entre muitos de seus eleitores seus piores inimigos, não me identifico com essa energia. Não que ele mesmo não tenha feito umas coisinhas que me levaram a questionar se eu votaria mesmo nele. Duas dessas “coisinhas” foram atos extremamente antidemocráticos. Primeiro, ele nos empurrou goela abaixo a triste figura de Grandino Rodas como reitor da USP, mais conhecido como “o repressor policial”, por seu gosto quase sexual em invocar a polícia sempre que estudantes e professores fazem manifestações. Rodas não foi o primeiro lugar da lista tríplice votada pela USP, mas Serra usou de seus poderes para fazê-lo assumir o cargo, mesmo tendo perdido. Quem ganhou foi Glaucius Oliva, mas quem levou foi Rodas. Muita gente não sabe, mas esta foi a primeira vez desde a ditadura militar que um governador não aceitou o primeiro lugar da lista tríplice para reitor. Os professores da USP ficaram revoltados, e com razão, com a desconsideração da escolha. Além disso, tentou impugnar a candidatura de Dilma Rousseff por conta da quebra de sigilo bancário de sua filha Verônica, num procedimento que foi o mais atabalhoado de sua candidatura. Ao invés de conseguir o que queria, só conseguiu transformar Dilma numa vítima. Afinal, quem acusa tem que provar, e não há provas de que Dilma estivesse envolvida na quebra de sigilo de Verônica Serra. Ficou parecendo mesmo que ele, Serra, numa atitude desesperada, quis vencer as eleições a partir de uma estratégia de luta-livre. Eu vi tudo isso, e só conseguia pensar: “porra, Serra!”. Pra completar, no último debate na RedeTV, achei-o fraquíssimo. Não que a senhora estivesse muito melhor, candidata Marina. Estava distraída, parecia em outro mundo. Quiçá Pandora? Volte!

À parte estas duas situações de deslize antidemocrático, eu continuo a ter simpatia pela pessoa do José Serra, acho-o um político muito capaz, mas acho que lhe falta um conselheiro pessoal. Eu até me ofereço, viu? Modéstia sempre à parte, eu sou um demônio na arte da estratégia. Mas só me ofereço para as próximas eleições, quando poderei reconsiderar a idéia de votar nele. Agora, felizmente para muitos e infelizmente para tantos outros, mudei de idéia e pretendo manter a atual.

Então, entre uma baixaria e outra, considerando que a candidata Dilma já tem mais votos do que eu tenho paciência, resolvi apostar na senhora, Marina Silva, como uma possível presença num eventual segundo turno. E é por estratégia que agora declaro meu voto na senhora, dona Marina. Se o faço publicamente, é porque ainda há muitos indecisos, e a estes eu digo: votem na Marina, dêem uma chance ao segundo turno. Tem gente que considera muito o que eu digo. É por causa deles que esta carta é tão longa. Eu não escrevo para os que já estão com a senhora. Escrevo para os que têm dúvida, pois eu mesmo já estive nesta situação.

Note que eu não tenho medo de nenhum de vocês quatro como presidentes. Não temo o Serra como presidente, acho que ele seria muito bom. Cometeria erros, é claro. Ao que me parece, ele é inclinadinho a querer fazer a própria vontade a todo o custo, apesar de ter lutado contra a ditadura no passado. Não tenho medo nenhum da Dilma como presidente, acho-a uma mulher incrível. O PT fez muita cagada, decepcionou muita gente com erros que não deveria ter cometido, isso é fato. Mas também é fato que acertou em muitos pontos, e entre os prós e os contras, eu vejo mais positividades que erros. Também não acho que Plínio seria um mau presidente. Gosto muito dele, é espirituoso, gostaria de conhecer melhor suas propostas.

Não há ninguém que me repugne. Ironicamente, a única que me repugnava era você, Marina, por conta de sua religião, veja que coisa! Mas eu vi suas propostas e seus posicionamentos quanto a coisas polêmicas, como a adoção por casais gays, a união civil homossexual, o direito ao aborto, a legalização da maconha, e ao que parece pensamos de forma similar. Tenho-lhe críticas. Não concordo com “plebiscito” para a descriminalização do aborto, por exemplo. Eu mesmo sou contra o aborto, acho que existem “n” coisas que uma mulher pode fazer para não engravidar e, caso engravide, pode muito bem doar sua criança para um casal que queira ter filhos e não possa. O fato é que o abortojá é feito em nossa sociedade, Marina, isso você não pode ignorar. Só que quem tem dinheiro para pagar um médico num lugar melhorzinho, paga. Quem é pobre, enfia cabides no útero, toma medicamentos questionáveis… Em suma: sou contra o aborto, mas sou contra a criminalização do procedimento. Existe uma diferença imensa entre uma coisa e outra, e não irei lhe explicar, a senhora é uma mulher inteligente. Entendo que um plebiscito traria a discussão à tona, e isso é bom. Mas como se portaria, por exemplo,sua igreja, numa discussão deste tipo? Usaria o fogo metafísico do inferno como argumento? Veja bem, dona Marina… estou lhe dando meu voto, precioso, confio na senhora para solicitar argumentos mais razoáveis aos seus companheiros de fé!

Também não me escapa o fato de que a senhora é um tanto quanto escorregadia no que concerne ao casamento civil homossexual, que não é a mesma coisa que a união civil. A união civil é um contrato que demanda um advogado, é uma coisa muito mais cara e burocrática do que o casamento civil. Os homossexuais continuam a ser tratados como cidadãos de segunda classe. Se João quer se casar com José, ou se Maria quer se casar com Ana [adultos que são, deveriam se casar com quem quisessem!], eles não podem ir a um cartório e simplesmente se casar. Eles têm que providenciar todas as traquitanas burocráticas, advogado, fazer um contrato… Enfim, a senhora é uma mulher informada, sabe muito bem que existe diferença entre uma união civil e casamento civil. Sei que o casamento também pode ser visto como um “sacramento religioso”, mas ninguém solicitou casamentos na igreja. O que é solicitado é o casamento no cartório. Além disso, a senhora sabe que o Estado é laico, e ninguém tem que ser religioso por força da lei. Por fim, lembre-se que existem muitos países de maioria protestante e católica, que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ah, não usei o termo “casamento gay” de propósito, pois me parece uma redundância. “Gay“, em inglês, é alegre. Existe casamento triste? Só se forem os impostos! Todo casamento, para ser um bom casamento, tem que ser alegre.

À parte tudo isso, Marina, dou-lhe meu voto. Talvez a senhora não vença agora, mas creio que ainda a veremos presidente do Brasil. Fico curioso para saber como seria, confesso. Pelo que pude estudar a seu respeito, sua moral é tão incorruptível, seus princípios éticos são tão rígidos que gostaria de ver como a senhora lidaria com a realidade da política, em que é preciso fazer conchavos, uniões e parcerias com gente que não vale o que come. Seria uma experiência e tanto verificar se alguém com uma ética tão rigorosa seria capaz de sobreviver neste mundo. Ou, quem sabe, até mudá-lo! Não sou um homem de esperanças, dona Marina. A esperança, como dizia Spinoza, é uma impotência da alma, pois é um desejo daquilo que não depende de nós. Sou um homem de vontade. A senhora também me parece esta mulher movida pela vontade. Meu voto é seu.

Boa sorte,

Alexey Dodsworth

Mestrando em Filosofia Política e Ética pela Universidade de São Paulo.

 

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