Charlatanismo quântico

Há quem comece pensando “epa, como alguém que gosta de astrologia e
tarot pode falar do charlatanismo alheio?”. Afinal, muita gente vê a
própria astrologia, o tarot e outras coisas como charlatanismo puro. É
que quem pensa assim não percebe a diferença entre saberes
não-científicos [no sentido contemporâneo do termo] e
charlatanismo. Uma coisa não ser parte do corpus da ciência oficial
não converte esta coisa em engano, engodo. Engodo é tudo o que tenta
passar algo que não é, que nem aquele[a] gostoso[a] com quem você
teclou na internet, que depois se revela um tribufu que te enviou
fotos falsas.

Se você não entendeu a diferença, não me incomodo em explicar
novamente: charlatanismo é tudo aquilo que se diz uma coisa que não é.
Mentira deslavada. Um bom astrólogo não é charlatão, não vende seu
peixe como algo referendado pela ciência moderna, mas pode se tornar
um se começa com um discurso do tipo “a ciência comprovou que energias
são enviadas dos planetas, causando ressonância na glândula
pituitária” [já vi este tipo de argumento], pois isso evidentemente é
mentira. Ops! Eu disse “evidentemente”? Desculpem, não é evidente,
não. Ao que parece, uma grande quantidade de pessoas acredita em
qualquer bobagem que vê na internet, principalmente se vier ao lado
das seguintes palavras mágicas: A FÍSICA QUÂNTICA COMPROVA, NASA, e
outras coisas que no momento me escapam.

Se um astrólogo entende seu corpo de conhecimento como não-científico
[no sentido popperiano do termo] e compreende que não há problema
algum nisso [ademais, nem tudo precisa ser “ciência popperiana” para
ter valor], não há como dizê-lo um “charlatão”. Vou repetir só mais
uma vez: charlatão é quem diz ser uma coisa que não é. Conhece um
astrólogo que diz que a ciência oficial comprovou a astrologia? É
mentira dele. A astrologia precisa da validação da ciência oficial?
Não, não precisa, a astrologia é outra ordem de discurso, é uma forma
de representar o mundo. Goste de astrologia ou não, acredite nela ou
não, você há de concordar que um bom astrólogo jamais se vende como
algo que deveras NÃO é. Alguém que procura um astrólogo pra fazer seu
mapa astral ou um pai de santo para jogar búzios é geralmente uma
pessoa adulta, em domínio de suas faculdades mentais, que dificilmente
procura tais profissionais por achá-los validados pela ciência
oficial.

Há inclusive uma certa frase falsamente atribuida a Albert Einstein,
onde ele fala de quão maravilhosa é a astrologia. Já adverti vários
amigos queridos, que usam ingenuamente tal frase, que ela é um engodo.
Einstein jamais se posicionou a respeito da astrologia, nem positiva e
nem negativamente. Como se vê, às vezes o charlatanismo se manifesta
de forma não-intencional.

O problema é quando você insere falsidades no discurso de propósito.
Isso não é “se enganar”, como ocorreu com alguns amigos astrólogos no
caso da frase de Einstein. Isso é enganar os outros, com conhecimento
de causa!

O que dizer de um lixo como este?

[Nota: este anúncio foi acessado pela primeira vez por mim em 2010. Estamos em 2016 e o anúncio continua lá, mentindo ao dizer que a “pulseira bioquântica” foi inventada por um cientista da NASA]

Ora, quem vende tais “pulseiras bioquânticas” a partir das informações contidas na publicidade do site, sabe muito bem que nenhum cientista da NASA jamais criou algo deste tipo. E pior: esta pulseira não tem absolutamente nada a ver com nada das teorias quânticas. É puro embuste, charlatanismo grosseiro com a finalidade de arrecadar
dinheiro de gente ingênua e mal informada. Não vejo diferença nenhuma entre esta “pulseira bioquântica” e o “óleo milagroso” que pastores de igrejas evangélicas costumam vender, prometendo a cura do câncer no pâncreas. Ah, ok, tem diferença de preço: o tal óleo ungido custa 300 reais, e a “pulseira bioquântica” custa apenas 120. Só fico na dúvida
se quem preconiza tamanhas palhaçadas o faz porque acredita mesmo nisso, ou se é safadeza. No caso da “pulseira bioquântica”, trata-se de safadeza indubitável, já que associar a criação deste engodo colorido com cientistas da NASA é mentira cavernosa. Já falei sobre isso em outras ocasiões: volta e meia recebo e-mails de pessoas conhecidas, a maioria delas bem inteligentes, que me repassam maluquices sem-fim supostamente ditas por “cientistas da NASA”. Em geral, elas ficam desapontadas quando eu digo que é mentira. É porque o mundo tedioso e ordinário parece pedir teorias conspiratórias,
mistérios e milagres que os cientistas supostamente escondem. Até travesseiro hoje em dia é vendido como sendo “travesseiro da NASA”, apesar de, no caso do travesseiro, haver uma razão de ser: trata-se, efetivamente, de uma tecnologia originalmente criada por cientistas da NASA. O que muita gente não sabe é que tal travesseiro foi descartado por não cumprir adequadamente o fim a que se destinava. De todo modo, o travesseiro em si não oferece propriedades medicinais especiais. É até confortável, eu tenho um.

Está na moda, pelo visto, usar o termo “quântico” em tudo. Anos atrás, recebi a propaganda de um curso intitulado O SABRE DE LUZ QUÂNTICO. Curioso, pensando em espadas jedi, liguei para a escola e pedi para falar com a ministrante do curso. Deu-se o seguinte diálogo:

– Olá! Você poderia me dizer o que é o curso do sabre de luz quântico?
– É uma série de técnicas que ajudarão você a dar um salto quântico em sua vida!
– Mas o que é um salto quântico?
– É a mudança total de sua qualidade de vida! Você melhorará seus
hábitos, sua autoestima, vai se sentir mais bem disposto…
– E como a gente aprende a dar este salto quântico no curso?
– Você aprende técnicas de meditação e de mentalização.
– Ah, entendi! Então o curso na verdade é um curso de meditação e de
visualização criativa, que vai me deixar mais relaxado e mais bem
disposto?
– Isso mesmo!
– Obrigado!

Eis o fato: quer vender um produto no mercado? Basta inserir o termo QUÂNTICO, que não significa absolutamente nada no contexto do produto, e uma legião de pessoas aderirá ao que você tem para vender, só por conta da moda.

Mas vejam, eu não sou um sequestrador de palavras! Admito que uma mesma palavra possa significar coisas distintas, afinal o que são homônimos não é mesmo? Podemos então definir “quântico” como algo, num sentido científico, e “quântico” como outra coisa, um balaio de gatos onde se mistura autoestima, energia positiva, etc. E dá pra colocar isso no dicionário, deixando claro que existem dois sentidos para
“quântico”.

Só que não existe malabarismo da retórica que dê conta da mentira descarada que é vender um produto, dizendo-o “criado por cientistas da NASA” a partir da física quântica. A única palavra adequada para isso é “charlatanismo”.

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