Gimnosofistas – as raízes orientais do ceticismo pirrônico

SOBRE A PRETENSA ORIGINALIDADE GREGA

Em sua “Metafísica”, Aristóteles afirma que Tales e seus discípulos foram os primeiros filósofos. Alguns argumentam que as grandes questões filosóficas ocidentais foram abordadas muito anteriormente por pensadores orientais. A originalidade grega, entretanto, não estaria nas perguntas, e sim nos processos utilizados para a busca de uma resposta.

De fato, é incorreto falar em “filosofia oriental”, na medida em que o que se tem é uma teosofia, um saber pautado numa suposta revelação divina e numa explicação do mundo que se baseia em mitos, em deuses. Seria, a partir deste ponto de vista, mais adequado falarmos em pensamento oriental, emsaber oriental, seria mais justo falarmos em verdade oriental. A filosofia, conforme a concebemos, é um processo que tem início quando o pensamento se torna racional e que prescinde de livros sagrados e dispensa revelações divinas. Nasce com os gregos, nasce no ocidente.

Vale salientar que, particularmente, não vejo como demérito aos orientais que o seu saber não receba a alcunha de “filosofia”. Ocorre apenas que a sabedoria oriental é essencialmente religiosa e, como toda e qualquer religião, pauta-se em verdades que devem ser transmitidas da forma mais pura aos seus discípulos, a fim de se preservar uma tradição. A filosofia grega, por outro lado, é fruto da pesquisa e nasce de um ato libertário em relação a toda e qualquer tradição. A filosofia grega busca a verdade, e esta busca se caracteriza por especulação mental. O pensamento oriental é um ato de fé, de entrega a uma verdade já existente.

Não obstante estas contradições, muitos pesquisadores defendem que a filosofia grega tem origem nos saberes orientais. A idéia de que a filosofia grega tem origens orientais retornou com força no século XIX, quando, por influência do romantismo, o Oriente ficou na moda entre nós ocidentais. Alguns dos principais sustentadores desta idéia foram Creuzer e Schlegel, que estudaram as semelhanças e a notável coincidência de idéias. Todavia, na maioria das vezes há um exagero fantasioso nessas teorias, como os de Augusto Gladitsch que, no final do século XIX, relaciona Sócrates com os chineses e realiza outras especulações que poderíamos chamar de “forçadas”, sobretudo por carecerem de conteúdo documentado. Outros pesquisadores, como os alemães Ritter e Zeller, reagiram fortemente contra tais associações forçadas.

O fator que compromete a seriedade de uma pesquisa a respeito da influência oriental sobre a filosofia grega, ao que me parece, é exatamente a empolgação (no que diz respeito aos que apreciam a cultura oriental) e, por outro lado, o preconceito e uma má vontade (no que concerne aos acadêmicos ocidentais). Na medida em que desenvolvia minha pesquisa, eu, que não morro de paixão pelas coisas do oriente e tampouco tenho má vontade em relação a elas, identifiquei não apenas a influência do saber oriental sobre os gregos, em casos específicos, mas também a influência da Grécia no saber oriental.

 

SOBRE GREGOS E BUDISTAS

A principal influência grega no saber oriental, significativa, diz respeito às alterações ocorridas no Budismo por conta da cultura helenística. Durante séculos, Buda não foi representado antropomorficamente, conforme suas próprias orientações. No lugar de Buda, ele era representado sempre por um espaço vazio, pela árvore Bodhi ou por suas próprias pegadas. Já entre 100 e 200 D.C., temos as primeiras representações antropomórficas de Buda, claramente influenciadas pela arte helenística. Nestas representações, podemos ver claros elementos helenísticos: a toga com dobras, o cabelo do Buda feito à semelhança do cabelo de Apolo Belvedere, o forte realismo da imagem, as proporções da face e as mãos da estátua, feitas de material diverso ao resto do corpo. A influência helenística não se limita, todavia, às imagens de Buda. Segundo Padma Dorje, assistente pessoal do Lama Padma Santem, há uma alteração da própria idéia da figura do Buda, por conta da influência grega: Buda passa a ser representado como uma figura humana, heróica e sábia, um modelo humano a ser seguido, e não uma idéia sem corpo.

Conforme escreve o Dalai Lama no prefácio do livro “Echoes of Alexander the Great”, (2000): “Uma das características peculiares da escola artística Gandara que surgiu no noroeste da Índia é que ela foi claramente influenciada pelo naturalismo do estilo grego clássico. Assim, embora estas imagens continuem passando a idéia de paz interior que resulta de praticarmos a doutrina do Buda, elas também nos dão a impressão de pessoas que falavam e caminhavam, etc. e dormiam tanto quanto dormimos. Estas representações são inspiradoras porque não só representam nossa meta, mas também a idéia de que pessoas como nós podem conseguir se tentarem”.

AS RAÍZES ORIENTAIS DO CETICISMO DE PIRRO

Por sua vez, quais seriam as possíveis influências orientais sobre a filosofia grega? Existem várias especulações a respeito, mas uma em específico é digna de nota e consideração, justamente por ter sido documentada. Trata-se do objetivo do presente trabalho: as raízes orientais do ceticismo de Pirro. À primeira vista, tal associação pode parecer assombrosa aos leigos da história da Índia: como poderia o ceticismo provir de uma região tão claramente religiosa? O ocidental médio costuma pensar na Índia como um lugar atrasado e supersticioso, todavia a maioria de nós nem faz idéia de como foi a história desta região. De fato, falamos isso do pensamento oriental a partir daquilo que é mais comum, mais famoso, daquilo que conhecemos e concebemos como sendo o saber oriental. Todavia, tenho observado que muitos ignoram a existência dos gimnosofistas, um especifico grupo oriental muito anterior aos primeiros filósofos gregos, um grupo que reúne todos os requisitos que os próprios ocidentais utilizam para definir “o que é filosofia”.

O termo “gimnosofista” (sábios do corpo) foi utilizado pela primeira vez por Plutarco no primeiro século da nossa era, quando descreveu o encontro de Alexandre Magno com dez gimnosofistas. Antes disso, os filósofos gregos os chamavam de “brâmanes”, o que é um pouco incorreto, uma vez que aqueles a quem Alexandre encontrou e que Plutarco chamou de “gimnosofistas” eram ex-brâmanes, dissidentes da religião hindu. Mas este grupo de indianos é mais conhecido pelos nomes de “faquires” e “iogues”.

Os hindus, à época de Pirro, já se dividiam em quatro castas: os brâmanes (a casta mais elevada, dos sábios), os kchatryas (guerreiros), os vaicyas(comerciantes) e os sudras (servos, escravos, aqueles que fazem o trabalho pesado). As pessoas não podiam se relacionar amorosamente com membros de castas diferentes, e ninguém mudava de casta. Além destas quatro castas, havia também os párias, que não pertenciam a casta alguma, e eram chamados de “intocáveis” (justamente porque não deveriam jamais ser tocados). Os párias lidavam (e ainda lidam) com o trabalho dito “sujo”: enterrar os mortos, por exemplo. Os párias não podiam se relacionar com nenhum membro das castas, pois eram considerados “poluídos”. A despeito deste sistema de castas nos parecer estranho, não creio que devamos julgá-lo a partir de nosso ponto de vista ocidental. Trata-se de uma cultura diferente da nossa, e eu só digo que a minha cultura é melhor porque é na realidade-túnel dela que estou inserido.

Os gimnosofistas surgem exatamente a partir da ruptura com esse sistema de castas. Curiosamente, não foram os membros das castas inferiores que se rebelaram, e sim alguns membros das castas superiores – os próprios brâmanes. Sobre isso, tratarei mais adiante.

Vale salientar que o próprio Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda, foi ele mesmo por um tempo um gimnosofista. Naquela época, era extremamente comum que os jovens abandonassem seus lares para se unirem aos gimnosofistas, uma espécie de rebeldia adolescente da época. Sidarta era filho do rei Shuddhodana e da rainha Maya. O rei temia enormemente que seu filho se unisse aos filósofos andarilhos, pois desejava que Sidarta se tornasse imperador. Entretanto, os temores de Shuddhodana se cumpriram: com a idade de 29 anos, Sidarta resolveu sair de casa, chocado com a miséria do mundo fora do palácio, e juntou-se aos gimnosofistas a fim de meditar e encontrar alguma resposta para os sofrimentos do mundo. Permaneceu ligado aos gimnosofistas por seis anos, jejuando e meditando. Um dia, cansou-se daquele estilo de vida e se separou do grupo. Após manter-se por sete dias sentado debaixo de uma figueira, em profunda meditação, Sidarta disse ter descoberto a verdade eterna e passou a ser chamado de “Buda” (“iluminado”, em sânscrito) e passou a pregar sua doutrina pela Índia. Sua proposta religiosa atraiu uma grande quantidade de seguidores, que apreciaram a idéia de venerar alguém que disse ter encontrado “a verdade”, sobretudo os párias. A partir daí, fica claro que Buda rompeu completamente com os gimnosofistas, pois a idéia de uma verdade universal se choca frontalmente contra as percepções gimnosofísticas.

 

REFERÊNCIAS GREGAS AOS GIMNOSOFISTAS

Em “A Vida de Alexandre”, Plutarco escreveu:

Ele (Alexandre) capturou dez gimnosofistas, que fizeram de tudo para levar a revolta a Sabbas, causando muitas dificuldades para os macedônios. Estes filósofos tinham a reputação de serem inteligentes e concisos ao responder perguntas. Alexandre lhes fez algumas perguntas difíceis, declarando que mataria o primeiro que desse uma resposta incorreta.”

Diógenes Laércio também faz clara referência aos gimnosofistas, ao reportar que Pirro de Eléia, assunto desta palestra e fundador do ceticismo, foi influenciado pelos gimnosofistas enquanto viajava pela Índia com Alexandre Magno e que após seu regresso a Eléia, imitou seus hábitos e inaugurou o ceticismo.

Não apenas Pirro manteve relações com os gimnosofistas. Diz-se que Demócrito também estabeleceu contato com eles. Conforme descrito por Hipólito de Roma (170-265 D.C.), em sua Philosophumena, obra também conhecida pelo nome “Refutação de Todas as Heresias”, no livro I, capítulo XI:

E Demócrito foi um discípulo de Lêucipo, filho de Damásio, nativo de Abdera , tendo contato com vários gimnosofistas indianos, com sacerdotes egípcios e com astrólogos e mágicos na Babilônia. Ele faz afirmações parecidas com as de Lêucipo, concerne aos elementos, isto é, plenitude e vácuo, denominando a plenitude de “entidade” e o vácuo de “não-entidade”; e isto ele afirmou já que existem coisas se movimentando continuamente no vácuo. Ele acreditava em mundos serem infinitos, e variando em tamanho, e que em alguns não há nem sol nem lua, enquanto que em outros, maiores do que o nosso, e outros mais numerosos. E que intervalos entre os mundos não são iguais; e que em um quarto do espaço são mais numerosos, e outros menos; e que alguns deles aumentam em tamanho, mas outros alcançam tamanhos máximos, enquanto que outros definham e que em um quarto eles estão nascendo, enquanto que em outro estão acabando: que estão se destruindo em colisões um com o outro. E que alguns mundos são destituídos de animais ou plantas, e toda espécie de umidade. E que a terra do nosso mundo foi criada antes das estrelas, e que a Lua está por baixo; próximo (a ela) o Sol, e as estrelas fixas. E que (nem) os planetas nem estas (estrelas fixas) possuem uma elevação igual. E que o mundo floresce, até não poder receber mais qualquer coisa do nada. Esse (filósofo) tornou tudo ao ridículo, como se todas as preocupações de humanidade merecessem riso.”

De fato, Demócrito ria de tudo. E quando Hipócrates lhe perguntou qual a razão de tanta graça, Demócrito respondeu: “Tu pensas que existem duas coisas que provocam meu riso, as boas e as más, porém, na verdade, eu rio de uma só coisa: dos homens, cheios de insensatez, incapazes de ações corretas, viajando para os confins da terra e deparando-se com profundezas insondáveis, para conseguir prata e ouro, nunca cessando de acumulá-los e, com seu tesouro aumentando seus próprios problemas, para evitar que, por não terem essas coisas, sejam considerados infelizes“.

Os gimnosofistas foram também assunto de um romance muito conhecido de Umberto Eco, chamado “Baudolino”, do qual transcrevo um excerto em particular:

“Um belo dia entraram numa selva rica de árvores frondosíssimas, com frutos de todas as espécies, através da qual corria um rio de água branca como o leite. e na selva abriam-se clareiras verdejantes, com palmeiras e videiras carregadas de esplêndidos cachos de bagos do tamanho de uma cidra. Numa destas clareiras havia uma aldeia de cabanas simples e robustas, de palha limpa, da qual saíram homens completamente nus da cabeça aos pés, e a alguns dos varões era só por acaso que às vezes a barba compridíssima e fluente cobria as partes pudendas. As mulheres não se envergonhavam de mostrar os seios e o ventre, mas dava a impressão de que o faziam de modo assaz casto: olhavam para os recém-chegados atrevidamente nos olhos, mas sem suscitarem pensamentos inconvenientes.

Eles falavam grego e, recebendo com cortesia os visitantes, disseram que eram gimnosofistas, ou seja, criaturas que, em inocente nudez, cultivavam a sapiência e praticavam a benevolência. Os nossos viajantes foram convidados a correrem livremente a sua silvestre aldeia, e à noite convidaram-nos para uma ceia feita apenas de alimentos produzidos pela terra. Baudolino fez algumas perguntas ao mais velho deles, que todos tratavam com particular reverência. Perguntou o que possuíam, e ele respondeu: – Possuímos a terra, as árvores, o sol, a lua e os astros. Quando temos fome comemos os frutos das árvores que, seguindo o sol e a lua, produzem sozinhos. Quando temos sede vamos ao rio e bebemos. Temos uma mulher para cada um: seguindo o ciclo lunar cada um fecunda a sua companheira, até parir dois filhos, e damos um ao pai e outro à mâe.

Baudolino espantou-se por nâo ter visto nenhum templo ou cemitério, e o velho disse: – Este lugar em que estamos é também o nosso túmulo, e aqui morremos estendendo-nos no sono da morte. A terra gera-nos, a terra nutre-nos, debaixo da terra dormimos o sono eterno. Quanto aos templos, sabemos que os erigem noutros lugares, para honrar o que eles chamam de Criador de todas as coisas. Mas nós acreditamos que as coisas por caridade, na graça de si próprias, tal como si próprias se mantêm, e a borboleta leva o pólen à flor que, ao crescer, a nutrirá.

– Mas pelo que estou a entender – pergunta Baudolino – vós praticais o amor e o respeito recíproco, não matais animais e muito menos os vossos semelhantes. Em virtude de qual mandamento o fazeis?

– Fazemo-lo precisamente para compensar a falta de todos os mandamentos. Só praticando e ensinando a virtude podemos consolar os nossos semelhantes da falta de um Pai.”

 

Voltando a Pirro, assim diz Diógenes Laércio:

Pirro de Eleia (…) começou, segundo Apolodoro, por ser pintor e aluno de Bryson, filho de Stilpon. Depois acompanhou, por todo o lado, Anaxárco, seguindo-o até aos gimnosofistas da Índia e aos magos, de onde retirou a sua notável filosofia. Introduziu a ideia de que não se pode conhecer nenhuma verdade e que é necessário suspender o juízo, como o ensina Ascânio de Abdera. Sustentava que não havia nem belo nem feio, nem justo nem injusto, que nada existe realmente e de uma maneira verdadeira, mas que em todas as coisas os homens se governam segundo o costume e a lei. Pois uma coisa não é mais isto do que aquilo. A sua vida justificou as suas teorias. Não evitava nada, não se defendia de nada, suportava tudo, a ponto de ser atropelado por um carro, de cair num buraco, de ser mordido por cães. De uma maneira geral, não confiava nos seus sentidos para nada. Era, porém, protegido pelas gentes que o acompanhavam e que relatam que ele filosofava segundo o princípio da dúvida, sem agir com imprudência. Viveu cerca de 90 anos.

(Diógenes Laércio, “Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”)

Ainda segundo Diógenes Laércio, Pirro se atraiu à filosofia por conta das obras de Demócrito. Uniu-se a Anaxarco e a Alexandre Magno numa excursão pelo oriente, tendo permanecido e estudado com os gimnosofistas na Índia por dez anos. Após retornar a Eléia, estava completamente transformado e passou a levar uma vida com o mínimo necessário, quase como um mendigo, mas era muito bem quisto inclusive pelos atenienses, que lhe concederam cidadania. Pirro, apesar de ter inaugurado o ceticismo, nada escreveu, em concordância com os hábitos dos gimnosofistas. Suas doutrinas são conhecidas principalmente pelos escritos satíricos de seu pupilo, Timon o silógrafo.

Pirro se vale de alguns termos importantes para o ceticismo: a acatalepsia(a impossibilidade de se conhecer a própria natureza das coisas). Segundo Pirro, qualquer afirmação pode ser contradita por argumentos igualmente válidos (tal como faziam os sofistas). Em segundo lugar, segundo Pirro, é necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual, também conhecida como epochè ou, conforme dito por Timon, seu discípulo, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra e nenhuma verdade absoluta pode ser afirmada ou negada, o que se aproxima muito do agnosticismo, e não do ateísmo, pois o ateísmo afirma peremptoriamente a inexistência de Deus ou deuses, enquanto o agnosticismo é uma postura ainda mais sofisticada do que crer ou não crer. Se eu afirmo que Deus não existe, não sou tão diferente daquele que diz que Deus existe. Em ambos os casos, estarei afirmando uma verdade. O agnóstico não sabe e, em geral, uma questão como essa não tem para o agnóstico grande importância. Deste modo, o agnóstico suspende o juízo, realiza a epochè. Por fim, estes resultados são aplicados na vida em geral. Pirro conclui que, uma vez que nada pode ser conhecido, a única atitude adequada é ataraxia, “despreocupação”. A epochèincorre, portanto, na desejada ataraxia.

Uma vez que é impossível conhecer algo, o homem sábio deve resguardar-se, evitando a excessiva emoção e apego que acompanha o debate sobre coisas imaginárias. Discussões religiosas, por exemplo, não fariam sentido. Este ceticismo drástico é a primeira e mais completa exposição de agnosticismo na história do pensamento. E o resultado disso é um resultado ético.

Conforme consta na Wikipedia, “(…) O caminho do sábio, diz Pirro, é perguntar-se três questões. Primeiro deve perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima.
A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. A cada afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base igualmente boa, e qualquer que seja minha opinião, a opinião contrária é defendida por alguém que é tão inteligente e competente para julgar quanto eu. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Diz-se que Pirro era tão cético que isso o teria levado a uma prematura e infortunada morte por volta de 270 a.C.. Segundo a lenda, ele estava demonstrando seu ceticismo vendado quando seus discípulos tentaram avisá-lo de um precipício à sua frente. Recusando-se a acreditar neles, terminou sua vida abruptamente.”

De fato, com um ceticismo desses ninguém conseguiria sobreviver por muito tempo e se Pirro era realmente assim, é de se espantar que tenha vivido por 90 anos. O mais provável é que este tipo de história não passe de lenda, piadas construídas a partir de exageros. Lendas do gênero são descritas por Diógenes Laércio e é provável que se trate de uma derivação de uma má interpretação de Aristóteles em sua “Metafísica”. Aristóteles argumenta que uma vez que um cético acredita na existência de um buraco a ponto de se desviar dele, então o cético na verdade rejeita a própria doutrina. É verdade que os céticos antigos permitiam a confiança nos pequenos fenômenos cotidianos, reservando seu ceticismo para as crenças mais teóricas.

A DIVERSIDADE GIMNOSOFÍSTICA

Eles, os gimnosofistas, não eram um grupo homogêneo, mas vários grupos que receberam o mesmo nome por partilharem de alguns pontos em comum:

  1. Os gimnosofistas romperam com o hinduísmo por considerarem os deuses e mitos como invenções da mente humana – ruptura com o mito;
  2. Discordando das práticas rituais devocionais, os gimnosofistas se retiram e vão viver como ascetas: vivem nus, ou com apenas uma tanga, e vivem conforme a natureza, sem nenhuma restrição determinada por convenções sociais;
  3. É interessante observar que a maioria dos gimnosofistas é composta por ex-brâmanes, ou seja, indivíduos pertencentes a uma casta superior na estrutura religiosa hindu. A discordância ao sistema de castas, que a priori deveria ocorrer a partir dos membros das castas inferiores, ocorreu justamente a partir dos membros da mais superior das castas. Estes ex-brâmanes eram considerados instruídos e cultos;
  4. Todos os gimnosofistas conheciam técnicas que lhes permitiam um domínio assombroso de suas funções corporais: a capacidade de suprimir a dor, a indiferença em relação ao frio e ao calor, a capacidade de jejuar por dias a fio, ou mesmo de se alimentar com apenas um pouco de arroz de vez em quando, além de outras habilidades impressionantes. Em verdade, o termo gimnosofista é um nome dado pelos gregos a estas tribos de dissidentes hindus, é um termo que significa “sabedoria do corpo”. Mas também conhecemos os gimnosofistas a partir de outros termos: iogues, faquires. Alguns chamam-nos erroneamente de brâmanes, mas na verdade são ex-brâmanes, pois romperam não apenas com o sistema de castas, como também com toda a estrutura religiosa hindu.

Entretanto, a despeito de partilharem características em comum, os chamados “gimnosofistas” eram grupos filosoficamente distintos entre si. Partilhavam idéias diferentes e viviam conforme as idéias que tinham. Em cada tribo, quem escolhesse se juntar a eles tinha que aprender a partir da convivência. Não havia reuniões para ensino, não havia Paidéia, nem nada similar. E, de fato, naquela época era muito comum que os jovens, sobretudo os de família rica, abandonassem tudo para seguir os gimnosofistas, como Buda o fez. E, assim, estes grupos cresciam.

Os grupos mais famosos e que atraíram o maior número de seguidores levavam o nome de seus idealizadores ou “mestres”:

PURANA KASHYAPA – Defendiam que a realidade é composta por partículas muito pequenas e que a maior parte de tudo é simplesmente vazia. O mundo é um grande vazio. E aquilo a que chamamos de partículas pequenas nada mais são do que apenas vibrações.

MASKARIN – Defendiam o ACAUSALISMO. A idéia de causa e efeito é uma ilusão, ou mesmo uma convenção da mente humana. Um engano da mente.

AJITA KASAKAMBALA – Defendiam que a natureza da existência é o sofrimento e que o crescimento interior só se dá através do sofrimento. Deste modo, mortificavam ao máximo o próprio corpo até se tornarem indiferentes à dor e, assim, dominarem a existência.

SANJAYN – Ensinavam que nenhum caminho religioso é necessário para a evolução interior, e que as regras morais são todas relativas: o que é bom para uns não é bom para outros. Não há Bem Universal.

KAKUDHA KATYAYANA – Ensinavam tanto em termos de existência como de inexistência, dando respostas de acordo com as perguntas que lhes faziam, adotando idéias em resposta às pessoas. Se alguém lhes perguntasse se os fenômenos existem, eles diriam que existem; se lhes perguntassem se os fenômenos são inexistentes, eles diriam que são inexistentes. Para os Katyayana, nada existe. É tudo discurso, não há verdade universal, e todas as coisas podem ser definidas por uma idéia e pelo seu oposto também.

NIRGRANTHA JNATAPUTRA (grupo que deu origem ao Jainismo) – Erros e méritos, virtudes e defeitos, são todos a mesma coisa, e tudo isso nos prende à roda dos nascimentos e mortes (reencarnação).

AJIVAKA – Todos os seres progridem para a perfeição, independentemente de seus esforços. Não é preciso fazer nada, pois todos estamos num rio cuja correnteza nos conduz fatalmente a um destino.

LOKAYATA – Negavam a prática espiritual, a lei de causa e efeito e negavam a realidade espiritual. Para eles, a única coisa verdadeira seria a realidade aparente das coisas percebidas através dos sentidos.

CHARKAVA – Não existe uma moral universal e apenas o mundo material é real. Assim sendo, cada pessoa deveria agir apenas conforme sua própria vontade para satisfazer seus desejos. A única forma de acabar com o desejo que angustia os homens é ceder a ele.

AMARAVIKHEPIKA – Não afirmavam e nem negavam nenhuma doutrina ou crença. Diziam que nada pode ser conhecido, nem mesmo aquilo que se apresenta aos nossos sentidos, pois os sentidos são enganadores e, assim, suspendiam o juízo. “Crer” em qualquer coisa, segundo os amaravikhepika, implica em se tornar escravo de uma ilusão. Diziam que somos escravos de nossas crenças, e que o ato de duvidar é curativo e libertador. Não negavam, entretanto, as crenças, pois negar algo é afirmar seu oposto – o que também é uma crença. Uma curiosidade interessante é que Buda enfatiza em sua obra os perigos associados às idéias gimnosofísticas da maioria dos grupos, exceto em relação aos seguidores de Maravikhepika. Segundo o Budismo, a dúvida cética não é necessariamente um mal, e sim uma prática saudável que nos impede de nos tornarmos escravos das coisas. Um dos venenos da mente, segundo o Budismo, é a dúvida imprópria, ou dúvida desnecessária. Podemos dizer que, para Buda, um ceticismo moderado era melhor do que nenhum ceticismo, mas poderia se tornar perigoso caso o indivíduo exagerasse na dose.

Sou inclinado a afirmar, a partir da história dos gimnosofistas, que eles poderiam, sim, ser considerados filósofos a partir do que os próprios gregos definiam como “filosofia”. Temos todos os elementos: ruptura com o mito, não-comprometimento com tradições, questionamento constante e, principalmente, a idéia de que qualquer homem e qualquer mulher é inclinado à busca pelo saber, e não apenas uns poucos por serem brâmanes, conforme ensina a tradição hindu.

Segundo um livro de 1668 chamado “De Moribus Brachmanorum”, atribuído a Santo Ambrósio (muito embora existam dúvidas quanto à autoria), um certo Calanus, ligado à comitiva de Alexandre Magno, foi feito prisioneiro pelos gimnosofistas. Ocorre que Alexandre Magno, fascinado não apenas com a sabedoria destes hindus, mas principalmente com o poder que eles tinham sobre seus próprios corpos, lhes propôs irem com ele até a Grécia, mas teve seu convite prontamente recusado. Alexandre Magno então resolveu forçá-los e, a partir daí, Calanus foi capturado. Em resposta a Alexandre, os gimnosofistas enviaram os seguintes dizeres:

Teus amigos persuadiram-te a, sem sequer sonhar com as nossas obras, usar de violência contra um Filósofo Hindu. Pois tu, chamado Alexandre, podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes tu fazer falar as pedras e as árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos e os destrói; nós porém estamos acima disso, pois somos queimados vivos e não ligamos. Nenhum rei ou príncipe pode nos chantagear a fazer o que não determinamos fazer. Tampouco somos como os Filósofos da Grécia, que estudaram palavras ao invés de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. Conosco as coisas são companheiras das palavras, e as palavras das coisas; nossas atitudes são solícitas e nossos discursos breves: gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude.”

Por fim, Alexandre captura os dez principais gimnosofistas acusados de serem os instigadores da rebelião de Sabbas e leva-os a julgamento. A cada um faz uma pergunta e a pena de morte é certa para aquele que dê uma resposta que ele, Alexandre, considerasse errada. Entretanto, Alexandre ficou bastante satisfeito com as respostas dadas. A um deles, o terceiro, Alexandre pergunta se ele sabe qual é o mais nocivo animal existente à superfície da terra. O gimnosofista responde: “um animal ainda não descoberto pelo Homem“. Os gimnosofistas eram completamente iconoclastas e não se impressionavam com nenhuma autoridade, muito menos com a de Alexandre. Neste sentido, há semelhanças impressionantes entre o comportamento destes ex-brâmanes com o comportamento de Diógenes, O Cínico.

Segundo Chandrakirti, um grande erutido mahayana e seguidor de Buda, os filósofos estão em situação pior do que os vaqueiros. Os vaqueiros possuem a mácula usual de operarem sob um realismo ingênuo, enquanto que os filósofos inventam idéias de essência, alma e assim por diante e criam uma camada adicional de mácula, o que torna a liberação mais difícil para eles.

Vale salientar que o contato de Alexandre Magno e de Pirro com os gimnosofistas não se deu “por acaso” em sua incursão pela Índia. Segundo afirmado por historiadores, Alexandre ouviu falar desses “sábios desnudos” e enviou para a Índia primeiramente Onesicritus, um filósofo grego da corrente Cínica, a fim de que este investigasse os gimnosofistas. As descobertas e relatos de Onesicritus impressionaram enormemente Alexandre Magno, que viajou para a Índia em 326 A.C. a fim de confabular com os gimnosofistas, desejando que estes fossem com ele até a Grécia.

Em seu artigo “Índia Antiga”, Paul LeValley compara os gregos com os gimnosofistas: “As razões do ascetismo nudista dos gimnosofistas e das práticas atletas nudistas da Grécia eram claramente similares. (…)(Essas razões falavam) de eficiência. Todo grupo conhecido de gimnosofistas apreciava o valor e a vida tranquila e despojada de convenções sociais que o nudismo traz; os legisladores de Esparta aconselhavam o nudismo entre seus cidadãos pela mesma razão.

Posteriormente, LeValley escreve que “Nrgrantha Jnataputra criticava os gregos, que limitavam seu nudismo ao ginásio. Jnataputra mencionava constantemente o nudismo como um método de libertação das ataduras e das convenções sociais”. Hindus e gregos concordavam que a nudez representava um estado de pureza e honestidade.”

Havia diferenças entre o nudismo grego e o nudismo hindu: enquanto os gregos consideravam a beleza do corpo humano, isso para os hindus era de nenhuma importância. Enquanto os gimnosofistas se referiam ao nudismo como um passo para se atingir a tranqüilidade absoluta e a indiferença em relação aos modelos sociais, os gregos consideravam o nudismo como uma base para a expressão da completitude do indivíduo. Além do que, os gregos davam maior ênfase ao desfrute, à música e ao prazer físico. Neste sentido, os gregos são mais parecidos com um grupo específico de gimnosofistas, osCharkava.

Paul LeValley conclui dizendo: “Quiçá o maior valor que ambos os grupos mantinham em comum era a associação do ascetismo hindu e os atletas gregos com a idéia de paz”.

OS TROPOS

Por dez anos, Pirro estudou com os gimnosofistas: de seus 31 aos 41 anos de idade. Além de um poema de louvor a Alexandre Magno, Pirro nada escreveu e todo seu pensamento só pode ser reconstituído por meio dos testemunhos de seus discípulos, como, por exemplo, Timon. O ato de não escrever é perfeitamente coerente com a proposta gimnosofística. Os gimnosofistas afirmavam que a escrita é perigosa, pois o que é escrito adquire valor de verdade absoluta, e eles não desejavam criar mais “livros sagrados” que fossem passíveis de fanatismo. O aprendizado gimnosofístico deveria se dar a partir do contato com um mestre qualificado, que mais questionava as verdades de seus discípulos do que respondia perguntas. Tratava-se de um procedimento terapêutico, pois os questionamentos libertavam as pessoas de seus dogmas e daquilo que eles chamavam de “doença da verdade”. Assim sendo, a ação dos gimnosofistas se dava a partir de argumentos em relação às verdades estabelecidas, e não de pregações de novas verdades. Os argumentos gimnosofísticos foram aproveitados por Pirro para a elaboração dos dez tropos.

Tropos são argumentos utilizados pelos céticos para demolir afirmações dogmáticas, absolutas e indiscutíveis. E é a partir destes argumentos que uma pessoa pode alcançar a epochè, ou “suspensão do juízo”.

CONCLUSÃO

  • Houve uma série de relações e inter-influências entre os povos orientais e os gregos;
  • A despeito do saber oriental em geral não ser adequado para ser denominado “filosofia”, os gimnosofistas inauguraram efetivamente uma filosofia (de acordo com os pré-requisitos que os próprios gregos estabeleceram como fundamentais para um pensamento receber este nome);
  • A filosofia cética de Pirro de Eléia decorre de sua convivência de dez anos com os gimnosofistas;
  • Os tropos (argumentos céticos) derivam diretamente do gimnosofismo;
  • A Índia, e não a Grécia, é o berço das idéias céticas.

BIBLIOGRAFIA

Wenzel, M. – “Echoes of Alexander The Great

Plutarco – “A Vida de Alexandre

Blackburn, Simon – “Verdade: um guia para os perplexos”

Hipólito de Roma – “Philosophumena

Santo Ambrosio (supostamente) – “De Moribus Brachmanorum

Laércio, Diógenes – “Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”

Guthrie, W. K. C. – “Os Sofistas

Junqueira Smith, Plínio – “Do Começo da Filosofia e Outros Ensaios

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