Indignação e proporcionalidade

A despeito de haver muita falta de educação e trollagem em comentários de blogs, costumo na medida do possível ler todos (ou, ao menos, a maioria) a fim de verificar o que as pessoas entenderam do que escrevi. Se hoje em dia não autorizo a publicação de comentários em meus textos, é porque eu terminava tentando ler todos e isso prejudicava meu tempo. Mas recebo continuamente mensagens no Facebook. Se há mais mal entendidos do que bem entendidos, é muito provável que eu tenha cometido alguma falha na explicação. Por isso, creio ser pertinente abordar um ponto bastante repetido em comentários do Facebook: o problema da proporcionalidade.

Quem merece mais a nossa indignação? Um cão assassinado? Um gay torturado? Um negro vítima de racismo? “Você está se indignando contra isso, mas deveria se indignar contra aquilo” é uma opinião bastante comum, e você a verá em todo canto da internet. Cada pessoa acha que a sua é a causa mais importante do universo.

Falas de A, mas não falas de B? A resposta é muito simples: quem disse que não falarei de B? Eu poderia falar sobre os perigos da barbárie, das reações que nos igualam aos algozes que criticamos, mas já tem muita gente boa fazendo isso. Eu poderia discorrer longamente sobre a diferença de impacto psicológico existente entre ver uma agressão e simplesmente ler sobre ela, mas deixarei este tema pra depois.

Se uma coisa o estudo da Filosofia me ensinou é a trabalhar com restrição de tema. Caso contrário, é muito fácil e tentador transformar um tema numa conversa de bar: você começa a falar em energia nuclear e, trinta minutos depois, se vê discursando sobre a queda de Atlântida.

Assim sendo, vamos aos pontos que, creio, merecem ser melhor trabalhados:

Não há erro algum em lembrar que, além de cães maltratados, vacas e galinhas, coelhos, ratos e outros animais muitas vezes sofrem em criadouros, processos de abate e laboratórios.

Não há erro algum em lembrar que, além de animais maltratados, há muita violência e descaso realizado contra vidas humanas.

Não há erro algum em lembrar que, além das passeatas por direitos humanos, as pessoas precisam se preocupar com várias outras questões.

Me parece perfeitamente razoável aproveitar a deixa de cenas de cães maltratados para dizer às pessoas: “se você se indigna com isso, vai ficar mais indignado ainda se porventura vir o que alguns lugares fazem com vacas e galinhas”. Ou dizer: “gostaria de ver esta indignação contra a violência ser aplicada também a casos de violência contra negros, gays, travestis, religiosos etc”.

Não há nada de errado nisso.

O problema, eu diria, é a forma como o argumento é geralmente apresentado, e o problema da forma – ironicamente – ultrapassa a mera formalidade. A forma como apresentamos um argumento faz toda a diferença na relação com nosso interlocutor – considerando, evidentemente, que o intento é convencer o outro. E me parece razoável supor que, quando escrevemos ou falamos, queremos convencer o outro daquilo que dizemos. Todavia, a depender de como o argumento seja apresentado, ele não apenas não convence, como cria reações de defesa imediata. A idéia pode estar correta, e o argumento ser ruim.
Este é o ponto. O que eu vejo em muitos lugares são algumas pessoas dizendo: “HIPÓCRITAS! Diz que se importa com o cão, mas nem liga pra vacas e galinhas que sofrem diariamente nos abatedouros etc, etc”, ou “Meu total desprezo por quem se emociona com a morte de um cão, mas não liga para mendigos”.

A má apresentação de um argumento pode destruir a razoabilidade de uma idéia. Freud acertou ao dizer que o mal entendido é a regra na comunicação humana. Ora, o que vejo em todas essas acusações e argumentos falaciosos dirigidos contra quem – por um motivo ou outro – se indigna com a violência cometida contra X ou contra Y é uma cisão entre potenciais aliados. Uma das discussões mais sem sentido que presenciei, meses atrás, versava sobre quem era mais oprimido: gays ou negros? Nem é preciso dizer como isso terminou: em briga, acusações mútuas entre bons militantes dos direitos humanos. A que serve este tipo de discussão? E se é para ela ser feita mesmo assim (já que tudo se discute), não custa muito conter os dedos e refletir antes de apresentar um argumento. Dizem que a internet faz as pessoas lerem mais. Não concordo. O que eu noto é que a internet possibilita que as pessoas escrevam mais – o que é bom, e seria melhor ainda se houvesse mais critério e ponderação em relação ao que digitamos.

Se foi preciso que um cão morresse para que nos revoltássemos contra a violência, isso pode ser aproveitado. A indignação pelo sofrimento alheio – seja um cão, um menino gay, um negro, um mendigo, uma mulher espancada – é sempre legítima. Levar o debate para quem “vale mais”, se um cão ou um ser humano, não me parece funcional. Não é o ser externo que está sendo valorado. O que está sendo valorado é a indignação, tão necessária em tempos em que a violência ainda faz parte de nossa rotina. Não vejo algumas indignações como melhores do que outras. Eu vejo o próprio ato de indignar-se como uma vacina contra a idiotia.

“Idiota” era um termo utilizado pelos gregos antigos para definir uma pessoa que agia como se fosse alheia à vida pública (nota: isso é muito bem abordado por meu orientador de mestrado, Renato Janine Ribeiro, em seu livro “Política para não ser idiota”). De fato, ainda hoje há pessoas que não se comovem com nada, não se indignam com nada, e vivem em função de seus próprios problemas. Jamais lamentam pelo sofrimento alheio, e dedicam toda emoção a coisas como “minha TV não está funcionando bem”, e isso se torna a coisa mais importante do mundo.

Quando vejo alguém se indignar contra a violência, seja ela qual for, acho fantástico, acho bom. Vejo nesta indignação um exercício de alteridade, de empatia. E penso: é possível expandir o campo de indignação desta pessoa para várias outras coisas. Ela é minha aliada. Nunca a tratarei como se inimiga fosse.

POST SCRIPTUM – uma amiga, Mônica Ismerim Barreto, transmitiu-me texto que demonstra de modo muito claro como TODAS as lutas se interligam. Leiam, é altamente instrutivo:

‎”A primeira organização no mundo dedicada a combater maus-tratos na infância de que se tem notícia é a New York Society for the Prevention of Cruelty to Children – NYSPCC (Sociedade de Prevenção da Crueldade contra Crianças de Nova York), criada em 1894. A história desta instituição registra que para remover a menina chamada Mary Ellen, de 9 anos de idade, da casa dos pais adotivos, que a estavam maltratando severamente, o promotor responsável pelo caso teve de solicitar a ajuda da Sociedade de Prevenção à Crueldade aos Animais de Nova York. Como na época não existiam leis que dessem às autoridades o poder de retirar da guarda dos pais fi lhos que fossem maltratados, o promotor foi obrigado a apelar para o fato de a menina também pertencer ao “reino animal”, conforme relatam os fundadores da instituição. Toda essa ação resultou na retirada da menina da casa dos pais adotivos, na colocação de Mary Ellen em um abrigo e na criação da Socievenção à crueldade contra as Crianças de Nova York (NYSPCC).” Guia escolar: métodos para identificação de sinais de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes (p.12).

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