O aborto

Em geral, a questão começa errada desde a raiz: você é a favor ou contra o aborto? Feita deste jeito, a pergunta desvia de pontos fundamentais e cai para um debate pífio.

Eu sou contra abortos. Qualquer pessoa razoável o é. Uma pessoa “favorável ao aborto” é aquela que, no apogeu de seu delírio, diria algo como que lindo dia para fazer um abortinho! Ora, ninguém quer isso, salvo pessoas tomadas por alguma patologia mental.

A questão correta é: você é favorável à criminalização do aborto? Neste sentido, faço minhas as palavras do meu orientador, Renato Janine Ribeiro, que se disse contra abortos até descobrir que as pessoas contrárias à possibilidade do aborto eram as mesmas que se posicionavam contrariamente aos métodos contraceptivos.

Vejam que beleza! Abortar tem que ser crime, mas usar camisinha não pode, usar pílula não pode, o sexo existe para a reprodução. Sabemos de onde vem este discurso. Curiosamente, seguir tais sugestões conduzem a uma proliferação incalculável de crianças em situações de pobreza ou até abaixo disso. Até então, continuo a não ter nada contra, mas estas mesmas pessoas que se dizem pró-explosão populacional chamam o Bolsa Família de “bolsa esmola”. E os pais vão criar a filharada com o que? Com salmos?

No mundo real, o aborto – crime que é – se encontra ao alcance de qualquer indivíduo com dinheiro suficiente para pagá-lo. Há menos de duas semanas, ouvi a história de um cidadão que pagou em torno de 5 mil reais para sua amante fazer o aborto numa clínica chiquérrima da Avenida Brasil, aqui em Sampa. Ser religioso pode ser muito fácil: ele se sentia culpado, mas pediu perdão a Deus, rezou um pouco e seguiu em frente.

Quem entra pelo cano, como sempre, é o pobre. O pobre, que não tem dinheiro para pagar o aborto, mas que faz mesmo assim se quiser, valendo-se de métodos extremamente perigosos. Ou então que tem seus sete, oito, dez filhos, porque PESSOAS DE BEM lhe disseram que não pode usar camisinha, não pode usar pílula, crescei e multiplicai-vos [mas não queiram Bolsa Família!].

Não é com espanto que vejo este tema se tornar o mote fundamental do segundo turno das eleições. Eu já esperava por isso. De acordo com os e-mails profundamente ignorantes que recebo, Dilma Roussef realizará um carnaval de abortos forçados em praça pública. E tem quem acredite nisso!

Eu na verdade fico com pena desta extrema direita. Que candidatos sobraram para eles? Se apoiam no Serra, esquecendo [ou fazendo de conta que não sabem] que foi Serra, quando era ministro da saúde, que garantiu a possibilidade de aborto assistido às mulheres vítimas de violência sexual. O mesmo Serra que agora posa de “totalmente contra o aborto”. Que mentira feia, candidato! Não desminta algo de bom que o senhor fez.

Ninguém gosta da idéia de abortos, mas a possibilidade deve estar garantida, a depender do caso. O oposto disso é manter o país na curiosa hipocrisia, em que todo mundo conhece alguém que já abortou – e que se não se deu mal, é porque teve dinheiro pra fazer direito. Particularmente, acho melhor ter a criança e entregá-la para adoção do que abortá-la. O problema é se ela nascer preta. Em nosso país, as “pessoas de bem” ainda estabelecem critérios epidérmicos e melanínicos para a adoção.

O debate precisa sair deste rumo patético que tomou, e as verdadeiras questões devem ser levantadas. A questão não é se Dilma é a favor do aborto ou não. A questão é: JOSÉ SERRA viabilizou o aborto assistido em nosso país [informem-se melhor, minhas senhoras e senhores], e Dilma Roussef é a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO, e não do aborto em si. Há alternativas que podem e devem ser abraçadas, mas não se espante se perceber que a linda família direitista é contra todas elas: camisinha? Anticoncepcionais? É pecado!

Pecado, meus caros, é mentira, calúnia e difamação. Nem mesmo Collor de Mello, em sua campanha contra Lula em 1989, desceu tão baixo e foi tão rasteiro. E, creiam: quando Collor passa ser evocado como comparativo, é porque a coisa já ultrapassou o limiar da podridão.

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