Vida alienígena e mudanças paradigmáticas

–  Professor Sagan, qual a sua opinião sobre a origem da vida inteligente no Universo?

– Sou a favor! – disse Carl Sagan.

E todos riram, mas nem todos entenderam a piada.

A suposição da existência da vida extraterrestre é um tema recorrente que mobiliza filósofos e cientistas há milhares de anos. Muito embora não existam evidências empíricas que provem de forma incontestável a presença de organismos fora do contexto terrestre, dispomos atualmente de tecnologia suficiente para ir além das meras especulações e investigar in situ este assunto tão instigante.

Este trabalho pretende discorrer a respeito das radicais mudanças paradigmáticas que se desencadeariam caso descobríssemos vida num contexto extraterrestre, seja esta vida inteligente ou não. A ciência atual, principalmente as ciências biológicas, defendem a vida como um “produto raro”, fruto do puro acaso. Outros ramos científicos, tais quais a física, a química e a astronomia tendem a considerar o nosso universo como sendo biofílico, ou seja, aprazível à existência de vida. Dentre os diversos paradigmas em jogo diante da descoberta de vida num contexto cósmico, um dos que mais chama a atenção é justamente este confronto entre o paradigma da vida como contingência versus a vida como o resultado de uma lei física.

A mudança do paradigma dominante pelo paradigma biofílico causaria uma revolução científica no sentido clássico, conforme exposto por Kuhn em sua obra A Estrutura das Revoluções Científicas. O propósito deste trabalho, portanto, envolve discorrer não apenas sobre as possibilidades concretas de contato com a vida extraterrestre, como também sobre como isso transformaria radicalmente a nossa percepção da ciência.

O QUE É UMA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA? A APOSTA DE DRAKE

É preciso, inicialmente, que façamos uma distinção pontual entre os conceitos de “revolução científica” e “progresso”. O senso comum costuma estabelecer uma relação de sinonímia entre os dois termos, mas há substanciais diferenças entre uma coisa e outra. Em verdade, há uma relação de subordinação: a revolução científica desencadeia fatalmente o progresso nas ciências e nas tecnologias, mas o progresso não necessariamente incorre em revoluções científicas.

O conceito de revolução científica, conforme é compreendido pela filosofia da ciência, representa uma notável mudança na estrutura da própria ciência ou, melhor dizendo, uma mudança de paradigma. O progresso tecnológico, em contrapartida, permite a inovação da técnica e dos instrumentais, mas não necessariamente produz uma mudança paradigmática. Vários exemplos ilustrativos podem permitir uma melhor compreensão desta necessária distinção:

Tomemos como exemplo o constante progresso das telecomunicações. Se antigamente dependíamos exclusivamente de cartas, atualmente dispomos da possibilidade de comunicação telefônica em constante progresso. Um aparelho telefônico do ano de 2009 será imensamente superior se comparado a um aparelho similar da década de 1990. Estes aparelhos cada vez mais sofisticados decorrem de um substancial progresso da técnica, mas não há uma mudança paradigmática envolvida.

Eventualmente o progresso técnico pode, sim, desencadear revoluções científicas. Vide as lunetas que Galileo Galilei utilizou para observar os corpos planetários: através delas, o paradigma até então vigente, que afirmava serem os planetas esferas perfeitas de éter (matéria do mundo supralunar, ou seja, incorruptível e não-sujeita ao devir da matéria ordinária, terrestre), praticamente desabou, não obstante as perseguições dos católicos. Mas para que o instrumental técnico possa causar uma revolução científica, é preciso um agente humano que aplique uma nova forma de olhar sobre as coisas. O que é importante salientar, aqui, é que o progresso tecnológico pode causar revoluções científicas, mas não necessariamente incorre numa revolução. Não é o instrumental “por si” que desencadeia revoluções, mas sim uma nova forma de olhar para este instrumental. O exemplo de Galileo é pertinente, porque antes dele as lunetas tinham utilidade, mas apenas no contexto marítimo e até mesmo bélico. No caso de Galileo, é evidente que ele já tinha uma idéia ou, melhor dizendo, uma aposta paradigmática que foi viabilizada por um instrumental tecnológico. O que causou a revolução científica não foi simplesmente o instrumental, mas a visão de um homem.

O projeto SETI é outro bom exemplo: trata-se de um instrumental altamente avançado em termos tecnológicos, utilizado em busca de vida inteligente em nossa galáxia. Este instrumental ainda não desencadeou uma revolução na ciência, mas poderá eventualmente fazê-lo. Existem outros projetos de busca por vida alienígena, com ambições diferentes: o que se busca não é a vida inteligente e capaz de se comunicar conosco, mas qualquer forma de vida, ainda que rudimentar.

Revoluções científicas envolvem quebras de paradigmas, modificações radicais na forma de ver o mundo. A revolução copernicana é outro exemplo de revolução científica: pensava-se que a Terra era o centro do Universo, e eis que de repente fomos reduzidos a um mero mundo dentre tantos outros orbitando o verdadeiro centro do sistema, uma estrela chamada “Sol”. O darwinismo é outra revolução científica, assim como a mecânica quântica. Uma possível grande revolução científica se dará nos próximos vinte anos, quando provavelmente demonstraremos que existe vida bacteriológica em Marte, Titã, Europa, Enceladus ou em outros pontos do nosso sistema solar, mudando o paradigma vigente que diz que a vida é algo raríssimo. Astrobiólogos apostam numa hipótese contrária: a atividade biológica é abundante no Universo. A vida pluricelular e, mais ainda, a vida inteligente seria, isto sim, rara.

Toda revolução científica principia com uma teoria, ou seja, é algo que parte de modelos mentais ousados que se valem dos instrumentais tecnológicos disponíveis. Ou seja, o progresso tecnológico é um instrumento que possibilita a revolução e, apesar desta relação, as duas coisas não são a mesma.

Um exemplo de modelo teórico que aposta na direção da revolução que nos interessa neste trabalho é a chamada “Equação de Drake”, voltada para a questão ancestral “estamos sozinhos no Universo?” Quem, ao contemplar a imensidão do universo em uma noite de céu limpo, já não se fez esta pergunta? Esta é uma das questões mais antigas da humanidade e que continua, até o momento, sem resposta.

Contudo, atualmente estamos cada vez mais próximos de encontrá-la. Enquanto grandes radiotelescópios vasculham o espaço em busca de qualquer sinal de vida fora da Terra, poderosos telescópios procuram atentamente por planetas como o nosso ao redor de outras estrelas e sondas exploram nosso próprio sistema solar em busca de  vestígios de vida. Esta busca incansável avança cada vez mais rápido, mas começou há um tempo relativamente curto, tendo sido iniciada por um modelo teórico, a Equação de Drake.

Em 1961, o astrônomo Frank Drake[1] (1930-) tentou estimar uma resposta para a pergunta de todos, e para isto desenvolveu a seguinte equação:

N = R* X fp X ne X fl X fi X fc X L

Onde “N” é o número de civilizações inteligentes cujas transmissões são detectáveis, “R*” é a taxa de formação de estrelas na Via Láctea, “fp”  é a taxa dessas estrelas que possui planetas em sua órbita, “ne” é a taxa desses planetas que se encontra na zona habitável de sua estrela, “fl” é a taxa destes planetas que chega a desenvolver formas de vida, “fi” é a taxa destas formas de vida que desenvolve inteligência, “fc” é a taxa destas formas de vida que evolui o bastante para emitir algum sinal detectável da Terra e “L” é a duração da emissão deste sinal, que depende do tempo de existência desta civilização num estágio tecnológico que permita a emissão e recepção de sinais.

Apesar de aparentemente simples, esta equação foi uma das motivações do inicio da busca por vida extraterrestre. Não obstante sua aparente simplicidade, seus valores podem ser muito difíceis de determinar na medida em que avançamos para os valores à direita da equação. A taxa de formação de estrelas na galáxia é facilmente determinável através de pesquisa observacional, a taxa de estrelas com planetas pode ser aproximada ao se comparar as estrelas conhecidas com planetas e aquelas que se sabe não possuírem planetas. Quantos mais exoplanetas são descobertos, melhor se torna a estimativa da taxa de planetas na zona habitável de uma estrela, porém a partir de então os dados começam a se tornar mais “estimados” e hipotéticos. O número de planetas habitáveis onde a vida realmente chega a se desenvolver é impossível de se determinar atualmente, pois o único real modelo que temos é a própria Terra. O mesmo acontece com a taxa de formas de vida que se tornam inteligentes e aquelas que começam a emitir sinais para o espaço, assim como o tempo que esta civilização vai existir e transmitir o sinal. Todas estas estimativas tomam como base o único modelo conhecido: o nosso. Um único modelo não oferece uma estatística que possa ser aplicada ao geral, o que torna a equação de Drake muito controversa. Valores a estes últimos fatores são atribuídos de acordo com a opinião pessoal de quem os estiver utilizando. Visões pessimistas para estas incógnitas chegam a valores de 2,44 civilizações, enquanto otimistas apostam em números mais altos, tais quais 10.000 civilizações. Milhares de formas de vida, espalhadas pela nossa própria galáxia, apenas esperando para serem encontradas. Mesmo que poucas sejam inteligentes, a equação de Drake ainda é muito otimista quanto à vida em sua forma mais simples. Esta equação pode não ter trazido uma resposta à pergunta, mas trouxe a motivação para buscá-la. Desde então, mais de 400 planetas já foram encontrados ao redor de outras estrelas, centenas de freqüências de ondas de rádio já foram examinadas e até mesmo água foi encontrada em outros corpos do sistema solar.

Mas e se a resposta vier? E se outras formas de vida, inteligentes ou não, forem encontradas? Quais seriam as conseqüências disso para a humanidade? Que paradigmas exatamente seriam quebrados?

APRESENTAÇÃO DO CONCEITO DE PARADIGMA

Discorrer sobre o que, afinal, é um paradigma, envolve uma dificuldade inicial decorrente do fato de que nos valemos, neste trabalho, da visão elaborada por T. S. Kuhn[2] (1922-1996). Em sua obra principal, A Estrutura das Revoluções Científicas, Kuhn nos oferece múltiplas definições para este mesmo termo: paradigma. Muito embora este livro seja muito claro num sentido científico, revela-se complexo num sentido filosófico, demandando leitura atenta e minuciosa. O leitor atento perceberá, ao final do livro, que há ao menos quatorze definições diferentes para “paradigma”, constantemente expostas. Elenquemo-nas, portanto:

1)       Paradigma é uma realização científica reconhecida pelo meio acadêmico de forma unânime ou quase unânime (exemplo: ninguém atualmente contesta que a Terra gira em torno do Sol);

2)       Paradigma é um modelo de crença (o paradigma atual, por exemplo, crê que a vida é algo raro no universo);

3)       Paradigma é uma constelação de perguntas (“estamos sós no universo?”, por exemplo);

4)       Paradigma é um manual de instruções que estabelece regras para o jogo. Sobre esta definição, vale citar um experimento clássico apontado na obra de Kuhn, no qual várias pessoas são expostas a diversas cartas do baralho em sequência aleatória. Entre as cartas reais, há cartas anômalas, tais quais um 8 de copas inteiramente preto, ou um Ás de espadas vermelho. Os jogadores não reconhecem as cartas erradas, pois suas mentes estão treinadas para ver as coisas a partir das regras já estabelecidas. Esta é uma das definições mais interessantes para o termo “paradigma”, uma vez que demonstra o quanto um modo de ver nos aprisiona a uma realidade. No caso da pesquisa de vida extraterrestre, por exemplo, esbarramos com o problema de que ao procurarmos “vida inteligente”, entendemos “inteligência” como sendo algo similar a nós. Do mesmo modo, por muito tempo imaginamos que a vida só seria possível em planetas tipo-Terra, mas atualmente se sabe – em decorrência da existência de extremófilas – que pode haver vida em ambientes que para nós seriam inóspitos. O fato é que quanto mais aprisionados estamos às regras do jogo, nem imaginamos que é possível jogar de outra maneira, e não identificamos as anomalias na medida em que elas surgem. Nossa mente adequa a anomalia a algo conhecido, e a revolução científica é assim evitada;

5)       Paradigma é um modelo (exemplo: o modelo newtoniano da física é um paradigma);

6)       Paradigma é uma especulação metafísica bem-sucedida. Um exemplo pertinente é a própria equação de Drake, que se pauta em parte em dados físicos e em parte em dados imaginários, “além da física”, ou seja, metafísicos. Se um dia a equação de Drake se revelasse funcional, diríamos que ela foi uma especulação bem-sucedida. Esta sexta definição de paradigma é muito interessante, pois contradiz o dogma ingênuo de que a física é uma ciência que se pauta somente na observação da experiência. Na prática, como nos diz Mario Bunge[3] (1919-) em seu Física e Filosofia, o que se vê é a elaboração de modelos que brotam completamente da imaginação do cientista, num exemplo claro de extrapolação da realidade mensurável;

7)       Paradigma é um dispositivo aceito na lei comum – modelo ou padrão aceito pela coletividade científica;

8)       Paradigma é uma fonte de instrumentos (cada paradigma desenvolve seu próprio instrumental inovador, ou seja, a tecnologia decorre do paradigma);

9)       Paradigma é uma ilustração da norma, ou seja, aquilo que é aceito como “norma” pela ciência oficial;

10)   Paradigma é um conjunto de instituições políticas – as mesmas instituições acadêmicas que definem o que é e o que não é “ciência”, muitas vezes mais a partir de argumentos políticos do que realmente epistemológicos;

11)   Paradigma é um princípio organizador que governa a percepção (neste sentido, muito similar à história do baralho de cartas);

12)   Paradigma é um ponto de vista epistemológico geral;

13)   Paradigma é um modo de ver;

14)   Paradigma é algo que define uma ampla extensão da realidade.

Pois bem: se os paradigmas precisam ter como propriedade o concretismo, podemos sintetizar dizendo que ele precisa ser, antes de tudo, um modelo, uma forma de ver e de abordar o mundo. Muito embora a fidelidade a um modelo possa limitar a nossa percepção da realidade, fazendo-nos não ver determinadas coisas (a exemplo da história do jogo de baralho com cartas anômalas), isso se justifica pelo fato de que se não estabelecemos regras precisas, tudo é possível e, consequentemente, tudo vale. Por exemplo: se não partimos de um modelo – ainda que geocêntrico – do que significa “algo vivo”, poderíamos expandir exageradamente a definição e dizer, misticamente, que “tudo é vivo”, o Sol é vivo, cometas são vivos, etc. Na prática, é necessário que partamos de modelos bem delimitados. O pensamento científico demanda critério e prudência e, por conseguinte, exige regras bem estabelecidas e também determinadas apostas. Se com o tempo tais regras são quebradas, isso é a decorrência natural da investigação científica, que exige também o tempero da ousadia.

A questão que norteia este trabalho é: que paradigmas seriam transformados caso descobríssemos vida fora da Terra? Que revoluções se processariam? Muito embora estejamos cientes de que o impacto da descoberta de vida extraterrestre desencadearia diversas revoluções sociais, epistemológicas com implicações inclusive éticas, políticas e religiosas, nossa proposta aqui é que nos foquemos em alguns exemplos pontuais, caso contrário o trabalho ficaria por demais amplo e seria por demais especulativo.

A VIDA EXTRATERRESTRE E O DURO GOLPE CONTRA O ANTROPOCENTRISMO

No contexto da pesquisa por vida inteligente extraterrestre, temos um paradigma, no sentido de especulação metafísica elaborada por Frank Drake, fornecendo uma visão relativamente otimista a respeito da existência de vida fora da Terra. Muito embora seja possível inserir dados os mais variados na equação, obtendo resultados menos otimistas (como fazia, por exemplo, Carl Sagan), ainda assim o mais pessimista dos resultados aponta para bilhões de mundos possíveis no universo com criaturas inteligentes (ainda que, na galáxia, apenas algo em torno de 2,4 civilizações). Entretanto, a existência possível de “Inteligência” não resolve o problema, pois o fato de uma entidade ser inteligente não significa que ela se desenvolva num sentido tecnológico, por vários motivos. Imaginar que todos os mundos inteligentes seriam como nós, não passa de egocentrismo. Conforme diz Carl Sagan: “É fácil imaginar um mundo cheio de poetas que não constroem radiotelescópios. Eles são muito inteligentes, mas não ouvimos nada que venha deles. Assim, nem toda forma de vida inteligente tem que ser tecnológica ou comunicativa. (…) Certamente podemos lembrar que levou a maior parte da história da Terra para que os ornitópodes, os cetáceos ou os primatas se desenvolvessem. Todos eles se desenvolveram nas últimas poucas dezenas de milhares de anos. Por que demorou tanto? Bem, deve haver certo grau de complexidade essencial para conseguir entender as coisas.[4]

Este mundo alienígena com seres inteligentes poderia ser dominado por um interdito religioso, por exemplo. Se pensarmos na variedade de contingências históricas que nos conduziram ao que somos hoje, perceberemos que bastaria uma única pequena diferença para que o mundo fosse totalmente diferente do que é. Além disso, há o ponto que uma civilização que esteja apenas um pouco atrás de nós não seria capaz de utilizar a técnica da radioastronomia. Ou até seria, mas não se interessa por isso, preferindo se dedicar às artes ou a questões filosóficas. O fato é que, não importa o quanto a Equação de Drake possa ser bem sucedida, nós terrestres somos muito provavelmente o resultado de uma sequência evolutiva única. Em outros planetas, com uma pressão evolutiva diferenciada e contingências diversas, dificilmente encontraríamos algo similar a um ser humano.

Um dos principais impactos decorrentes do contato com civilizações alienígenas seria de ordem metafísica. Como fica a idéia terrestre de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus? Arthur Clarke[5] (1917-2008) costumava dizer que a doutrina religiosa da humanidade feita à imagem e semelhança de Deus é como uma bomba relógio fazendo tique-taque, prestes a explodir, e que a explosão ocorreria no exato momento em que nos deparássemos com a existência de vida inteligente extraterrestre.

Curiosamente, o que poderia funcionar como uma interseção entre nós e seres alienígenas inteligentes não seriam as crenças religiosas, as questões éticas, a cultura ou as especulações metafísicas – tudo isso pertence ao plano da contingência. Seria, isso sim, a própria física. Em nosso próprio planeta, verificamos o quanto culturas diferentes criam conceitos éticos totalmente distintos, especulações metafísicas conflitantes, religiões inconciliáveis.Todavia, as leis da física são as mesmas para qualquer cultura e qualquer planeta. Não são as contingências que desencadeiam a tecnologia, pois as leis físicas são o que são, diferentemente das crenças metafísicas. Por mais singular que uma civilização seja em relação a nós, para ser tecnologicamente avançada ela precisará considerar os mesmos aspectos da física que nós consideramos – talvez alguns que ainda não tenhamos descoberto, mas ainda assim a trajetória encontrará similaridades exatamente a partir do entendimento das leis físicas. Podemos inventar deuses diferentes, ter gostos diferentes, artes diferentes, mas a física que rege o universo é uma só e se impõe não como contingência, e sim como necessidade, como determinismo.

O PARADIGMA DA BIOLOGIA E O PARADIGMA DA FÍSICA EM CONTRASTE: A VIDA COMO CONTINGÊNCIA OU COMO UM DERRADEIRO IMPERATIVO CÓSMICO?

O contraste entre contingência e necessidade (determinismo) é uma das questões filosóficas mais profundas que há séculos mobiliza os pensadores. Tomemos a perspectiva da busca por vida alienígena a partir de um prisma menos ambicioso: e se não encontrarmos vida inteligente, mas ainda assim encontrarmos vida em suas manifestações mais simples? Bactérias extremófilas alienígenas, por exemplo. Isso causaria algum tipo de mudança paradigmática? Desencadearia revoluções científicas?

Certamente que sim. Vamos aos pontos, portanto:

O paradigma da biologia afirma ser a vida algo bastante raro e incomum. Caso encontremos vida em sítios extraplanetários, ainda que sejam apenas bactérias, veremo-nos diante da possibilidade de ser a vida não uma raridade, conforme apostam os biólogos, mas o produto derradeiro de alguma lei física. No paradigma atual, a existência de vida se encontra atrelada à contingência darwiniana. Segundo Paul Davies[6] (1946-) em seu livro O Quinto Milagre, para os biólogos a natureza não possui causa final e a vida na Terra decorre do mais puro acaso, pois o próprio universo é inóspito à vida. Contudo, caso fique demonstrado que a vida é relativamente comum no universo (ainda que em sua forma simples, bacteriológica), ficará claro que não obstante as contingências darwinistas que empurram a vida nesta ou naquela direção de acordo com o ambiente, incorrendo em mutações, há um telos, uma finalidade na natureza. Conforme diz Paul Davis em O Quinto Milagre: As ramificações de encontrar vida em outro lugar no cosmos são, portanto, extremamente profundas. Transcendem a mera ciência e causam impacto em questões filosóficas como a de saber se há um sentido para a existência física, ou se a vida, o universo e tudo o mais são em última análise desprovidos de sentido e absurdos”.

Contingência e necessidade são dois termos amplamente utilizados no discurso filosófico, mas que também se aplicam às ciências em geral. A forma esférica de um planeta, por exemplo, é uma necessidade física, mas sua cor, excentricidade, massa e tamanho são contingências que dependem da localização do planeta num dado sistema, assim como de seus elementos químicos predominantes e outros fatores diversos. Já no que tange à vida, a biologia a aponta como sendo ela inteira uma grande contingência cósmica, mas existe o argumento contrário, que afirma ser a vida uma necessidade (no sentido filosófico dado a esta palavra, sinônimo de “determinação natural”), muito embora o tipo de vida seja, isso sim, fruto de contingências. Não encontraríamos em Titã o mesmo tipo de vida que encontramos aqui na Terra – salvo, talvez, em locais extremos do nosso planeta, como em vulcões ou geleiras. Afinal, nem encontramos o mesmo tipo de vida em locais distintos do nosso próprio planeta. O fato de a vida ter se desenvolvido na Terra de uma determinada maneira tem a ver com as contingências darwinistas locais, mas ela poderia surgir em vários outros lugares, por mais absurdos que pareçam à primeira vista, como por exemplo na alta atmosfera do planeta Júpiter.

Mas nem todos vão tão longe quanto Davies. Descobrir vida bacteriológica fora da Terra e em nosso próprio sistema solar, para muitos, não incorreria necessariamente numa mudança de paradigma. Por mais entusiástica que uma descoberta assim pudesse ser, seria preciso definir se a vida surgiuindependentemente na Terra e em outro lugar (como, por exemplo, Marte ou Titã), pois há a possibilidade de ela, a vida, ter surgido num sítio planetário e posteriormente migrado para outro, através de meteoritos. Encontrar bactérias em Marte, Titã ou Europa não consistiria uma “prova” de que a vida é um telos da natureza, pois seria necessário provar que estes organismos não têm nada a ver com o surgimento da vida na Terra. Ainda assim, tal descoberta consistiria um forte indício de que o universo é de fato biofílico, conforme apostam os astrobiólogos. Mas para mudar o paradigma de vez, superando as crenças menos otimistas dos biólogos em geral, seria necessário demonstrar que a vida surgiu independentemente em cada sítio planetário. Tal demonstração não seria fácil. Outros cientistas argumentam que provas assim seriam um purismo exagerado, pois apenas o fato de se demonstrar que a vida é possível em lugares como Titã ou Europa, isso por si só já demonstra que o universo é biofílico e um novo paradigma é estabelecido, causando uma revolução científica. Talvez não uma revolução tão dramática quanto aquela desencadeada pela descoberta de vida inteligente, mas ainda assim tal descoberta afetaria os mais variados espectros do saber humano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: REVOLUÇÃO PARADIGMÁTICA, POLÊMICAS ÉTICAS, TERROR PRÉVIO E A IMPORTÂNCIA DO COMUNICADOR CIENTÍFICO

Questões éticas polêmicas seriam levantadas caso descobríssemos vida – ainda que simples – fora da Terra, como a seguinte: devemos proteger um corpo planetário repleto de organismos simples, ou deveríamos deixar este corpo à mercê da natureza? Se uma raça inteligente tivesse protegido a Terra em seus primórdios, por exemplo, não existiriam seres humanos (este argumento, é, obviamente, bem humano). Como saber o procedimento correto, se não temos a visão do futuro? Alguns argumentariam que, sendo a vida neste corpo planetário algo tão singular, deveria ela ser por nós protegida. Outros diriam que devemos deixar a evolução seguir seu curso, e que se meteoros devem cair no corpo planetário e destruir tudo, forçando a evolução em outro sentido, que assim seja.

O fato é que o universo é pleno de matéria orgânica, isso já é sabido. Encontramos este tipo de material em cometas e em sítios do nosso próprio sistema solar considerados prebióticos. Assim sendo, a busca por vida fora da Terra, ainda que com objetivos menos ambiciosos do que os do projeto SETI, mais do se justifica. Em menos de 50 anos, se os projetos de investigação do sistema solar fluírem a contento, provavelmente teremos os derradeiros indícios de que a vida não se resume ao planeta Terra. E, justamente por conta disso, um dos setores mais importantes da astronomia será o jornalismo científico, que terá a responsabilidade de comunicar eficientemente e de forma inteligível para o leigo aquilo que foi descoberto, caso contrário veremos a humanidade novamente mergulhada em episódios de histeria decorrentes de mal entendidos e dos oportunistas de plantão, que apelam para a pseudociência com a finalidade de propagar a histeria.

Um bom exemplo de como uma descoberta científica pode causar desastres sociais antes de desencadear revoluções científicas é o que ocorreu em 1910, quando William Huggins[7] (1824-1910) inadvertidamente apavorou o mundo em conseqüência de uma simples descoberta astronômica. Pânico em massa ocorreu no Japão, na URSS, nos EUA. O papa teve que intervir, solicitando que as pessoas parassem de comprar cilindros de oxigênio. Cem mil pessoas subiram em seus telhados, em Constantinopla. Tudo isso porque Huggins, valendo-se de um espectroscópio para decompor a luz de um cometa em suas freqüências constituintes, descobriu cianeto como substância predominante. É sabido que um único grão de cianeto é capaz de matar instantaneamente um ser humano. Todas estas descobertas somadas à probabilidade da cauda do cometa passar perto da Terra deixou as pessoas apavoradas. Astrônomos tentaram acalmar a população, explicando que não havia o que temer, mas o excesso de jargões científicos e o uso de uma linguagem superespecífica em nada colaborou para o entendimento das pessoas – ao contrário, só fez agravar o medo.

O bom comunicador científico é, portanto, o agente que viabiliza a transição dos paradigmas, a fim de que antes da revolução científica não advenha o puro terror.

Preocupações similares que beiram a histeria coletiva surgem sempre que alguma revolução científica está prestes a se concretizar. A saída da zona de conforto pode ser amedrontadora para a maioria das pessoas, sobretudo as com pouco entendimento da ciência, ou para aquelas implicadas com dogmas religiosos. Vemos recentemente o caso do LHC, suscitando especulações exageradas em diversos sites da internet: os cientistas criarão um buraco negro? Ele engolirá a Terra? Não é difícil imaginar o que aconteceria se, por exemplo, descobríssemos bactérias em Marte ou em qualquer outro lugar: os cientistas estão trazendo bactérias extraterrestres para a Terra? Tais bactérias desencadearão algum surto de doença alienígena que devastará a humanidade? Basta olharmos para a nossa própria história e veremos o que acontece sempre que uma revolução científica desponta no horizonte: antes dela, vem o medo natural decorrente da ignorância. Mais do que nunca, o meio científico precisa de bons comunicadores que funcionarão como “agentes de transição”. Em nosso planeta, a ciência não deve jamais se desvencilhar de seu aspecto humano, caso contrário perderá a oportunidade de agir como a fonte de luz que clarifica e oferece novos sentidos e destinos aos nossos passos.

BIBLIOGRAFIA

BUNGE, Mario – Física e Filosofia – 2000, Perspectiva. Tradução de Gita K. Guinsburg.

COUPER e HENBESL – The History of Astronomy – 2007, Firefly Books.

DAVIES, Paulo – O Quinto Milagre – 2002, Companhia das Letras. Tradução de Rosaura Eichenberg.

DINWIDDIE, Robert – Universe, the definitive visual guide – 2005, DK Editora.

KUHN, Thomas S. – A Estrutura das Revoluções Científicas – 2007, Perspectiva. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira.

SAGAN, Carl – Variedades da Experiência Científica – 2006, Companhia das Letras. Tradução de Fernanda Ravagnani.

http://seti.org/drakeequation, em 04/12/2009

http://michaelshermer.com/2008/08/why-et-hasnt-called, em 04/12/2009

http://planetquest.jpl.nasa.gov/, em 07/12/2009

http://en.wikipedia.org/wiki/SETI, em 07/12/2009

[1] Frank Drake é um astrônomo e astrofísico estudinedense, fundador do projeto SETI.

[2] Thomas Kuhn foi um físico estadunidense.

[3] Mario Bunge é um físico e filósofo argentino.

[4] SAGAN, Carl – Variedades da Experiência Científica – Companhia das Letras, 2006, pg. 133.

[5] Escritor e inventor britânico.

[6] Paul Davies é um cosmólogo e escritor inglês.

[7] Astrônomo britânico.

 

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